…PERO QUE LAS AY, LAS AY

segunda-feira, 23 de outubro de 2017
 Vamos por partes, melhor dizendo, por peças.

      Primeira peça.
      No passado dia 16 do corrente, passou na RTP1, a hora já adiantada da noite, talvez não por acaso, um documentário intitulado BILDERBERG, O FILME. Trata-se de um trabalho sobre as origens, a natureza e a expansão articulada de uma das organizações mais elitistas e secretas da actualidade: o Grupo Bilderberg. O seu autor é o arguto jornalista de investigação Daniel Estulin, lituano, que escreveu também o livro A Verdadeira História do Clube de Bilderberg; no documentário são vários os testemunhos e as intervenções de personalidades internacionais do jornalismo, da historiografia e da análise política, que se constituem em vozes insurgentes contra uma nova “Ordem” que parece estar na forja.
Integrando as individualidades mais poderosas, mais influentes e mais ricas do planeta, este Grupo constitui o escol no campo dos negócios, das finanças, dos meios de comunicação e da política. O documentário explica bem que esta oligarquia transatlântica financeira e política está por trás das crises petrolíferas e financeiras, da manipulação dos mercados, de golpes de estado, de quedas de governos e do fomento de guerras regionais convenientes. Em nome de uma ideia de governação mundial que suprima o estado-nação e converta o mundo numa grande empresa, com as riquezas e o poder de decisão concentrados nas mãos de um grupo de pessoas, são congeminadas estratégias e decisões que se repercutem na vida de todos nós, em todas as latitudes do planeta. Não se pretende promover a felicidade humana olhando-a como um fim supremo; a intenção é gerir a comunidade mundial valorizando mais o instinto animal do homem (um ser simplesmente consumista) do que a centelha de liberdade e criatividade espiritual que o distingue das outras criaturas e confere verdadeiro sentido à sua existência.
As reuniões do Grupo Bilderberg são sempre da ordem de 150 a 200 personalidades, e para elas são convidados jovens ambiciosos que se revelam ou iniciam na política ou no mundo das finanças. É neste contexto que se explica a entrada de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia, a avaliar pela revelação de Daniel Estulin quando declara que as suas fontes lhe confirmaram que Henry Kissinger, um membro permanente de Bilderberg, terá dito sobre o político português: “É indiscutivelmente o pior primeiro-ministro na recente história política. Mas será o nosso homem na Europa”. O acesso às reuniões é vedado aos mass media, mas proprietários de redes de comunicação seleccionadas são convidados a assistir, não para proporcionarem uma informação livre, mas para colherem directrizes subliminares com vista à formatação de uma opinião pública mundial favorável aos desígnios desta poderosa e influente oligarquia.

     Segunda peça.
      É óbvio que o sucesso da “Geringonça”, contrariando todas as previsões do FMI e da UE, e demonstrando quão discutível era a inevitabilidade da receita da “Troika”, está ao arrepio das conveniências daqueles organismos. Podem agora elogiar os bons resultados alcançados, mas certamente que o farão com um sorriso constrangido ou voz sumida. De facto, não lhes interessa o sucesso de outra via que não seja a consagração da receita de má memória que foi para centenas de milhares de criaturas que perderam os seus empregos, que viram os seus ordenados e pensões arbitrariamente cortados, que ficaram sem as suas casas, que tiveram de emigrar ou ficar dependentes das sopas da caridade pública. Deve preocupar à oligarquia que a “Geringonça” ganhe foros de um “case study” ou se torne fórmula para soluções governativas europeias onde as forças da Esquerda se fragmentam com os seus dissídios ideológicos. Em suma, a “Geringonça” está a provar que há uma alternativa para a receita imposta pelos mercados, está a pôr em causa a matriz ideológica patrocinada pelo Grupo Bilderberg. 

      Terceira peça.
      O principal partido da Oposição nunca se conformou com a solução governativa encontrada no Parlamento, tanto que o seu líder mais de uma vez anunciou que tarde ou cedo viria o Diabo acertar contas com o país, esperando depois retomar o poder em clima de apoteose. Certamente que ele se referia a um novo resgaste em face de uma aguardada falência da política financeira e económica do governo. Mas, enfim, o diabo assume as formas que quisermos e, de tanto ser invocado nos salões do poder, em vez de esconjurado nos átrios das igrejas, pode surpreender-nos com as manifestações mais inesperadas. Pois, há quem diga que o Diabo ouviu a voz tonitruante de Passos Coelho e mostrou a sua arma dilecta – o fogo – ceifando este ano vastas áreas florestais do país e levando no seu vórtice mais de uma centena de vidas humanas. A compaixão e a dor até nos podem levar a conceder se não teria sido preferível um novo desacerto nas nossas contas a troco das vidas humanas, porque estas nenhum resgate as repõe. Mas quedamo-nos interrogativos sobre as verdadeiras causas dos incêndios que neste ano, sobretudo os últimos, assolaram de forma tão instantânea como aparentemente concertada o território nacional. Caberá à Justiça averiguar e concluir se os 160 incendiários identificados agiram simplesmente do seu livre arbítrio ou estiveram, pelo menos alguns deles, a soldo de uma organização criminosa com fins económicos ou políticos. Sim, porque nem sempre é fácil distinguir a linha separadora entre a motivação económica e a política; e essa busca remete-nos forçosamente para a natureza e os propósitos do Grupo Bilderberg.
Por outro lado, não me convenço da existência de um nexo de causalidade entre a pessoa concreta da ministra recém-demitida, Constança Urbano de Sousa, e a fragilidade ou insuficiência do nosso sistema de prevenção e combate a incêndios florestais. O problema é de fundo e é estrutural e compromete todos, mas rigorosamente todos os governos das últimas quatro décadas, e envolvendo também a agora empertigada Assunção Cristas, que, sem pudor, não se questiona pelo que fez ou deixou de fazer no domínio das florestas, enquanto ministra da agricultura. Por isso, ocorre perguntar se no lugar da ministra demitida, ela teria feito mais, melhor ou diferente. Costuma-se dizer que presunção e água benta, cada qual usa a que quer. É nítido, pois, que para a Oposição os incêndios florestais deste ano são uma espécie de bóia de salvação, sem pejo nenhum em colher dividendos políticos por algo que lhe caiu do céu, com artefactos e prodígios do Diabo. Não deixa de causar repúdio a qualquer consciência esclarecida que a Oposição queira exultar-se com presumidos ganhos políticos à custa de uma tragédia nacional, ao invés de congraçar-se com as melhores soluções para um problema que imbrica necessariamente com toda a colectividade nacional.

      Quarta peça.
      É estranho mas talvez não surpreendente que a nossa comunicação social se mostre quase toda ela afinada por um mesmo diapasão, dando a ideia de domesticada por algo que está na sombra mas imanente e incontornável. Salvo raras e honrosas excepções, o tratamento das notícias é pouco digno de uma imprensa livre, limpa e honrada, como o demonstra, entre outras tristes evidências, a ignóbil a tentativa de explorar até à exaustão a desgraça alheia, sem outra finalidade que não seja produzir um eco social desfavorável ao governo. Jornalistas, repórteres e fazedores de opinião devidamente seleccionados parecem autênticas marionetas. O discurso é genericamente ambíguo, redondo, vazio, certamente para não arriscar entrar em disrupção com o paradigma instalado.
Vindo ao encontro do que eu penso, no blogue “AS PALAVRAS SÃO ARMAS”, o general da Força Aérea na reserva Vítor Cunha, em texto de 16 de Outubro do corrente, afirmou que: “Começa a ser muito difícil olhar para estes fogos como se fossem todos eles produto de causas naturais ou de incendiários loucos ou doentes. A coisa tem, inclusivamente, contornos demasiado odiosos para ser obra do chamado lobby dos fogos. Não, por mim deixei de ter dúvidas, isto faz-me lembrar os incêndios às sedes do PCP por esse país fora (sobretudo a Norte, também), no Verão quente de 1975, com o intuito de enfraquecer e derrubar o poder político da época. Repito: não tenho hoje grandes dúvidas que estes fogos são obra de gente a soldo de quem está interessado em derrubar este poder político. Não sejam ingénuos, as pessoas são extremamente activas nestas actividades, sobretudo quando não lhes restam grandes alternativas no plano da luta política”. Prosseguindo, o general afirma: “Se o leitor ainda achar que estou a exagerar, note apenas o seguinte: este fim-de-semana, atendendo à chuva prevista para os próximos dias e à chegada de tempos mais húmidos e com menores temperaturas, era a última oportunidade de provocar danos físicos graves e, eventualmente, danos políticos na "geringonça”. Viu-se o que aconteceu, acha o leitor que foi apenas coincidência? E então, vamos continuar a fingir que todos estes fogos não são acções inimigas do actual poder político? Vamos continuar a ter medo de chamar os bois pelo nome?”.
Ora, o autor do texto faz uma especulação com propósito e toda a liberdade lhe assiste nesse sentido. E poderia ainda ter sublinhado que a estranha e devastadora guerra incendiária deflagrada em 15 de Outubro seguiu-se a uma pesada derrota eleitoral do principal partido da oposição, sentenciando a morte política do seu líder.
      Juntando as peças do meu discurso, há razão para crer que misteriosos cordelinhos entrelaçam uns e outros, comunicação social, o mundo dos negócios e políticos obedientes e domesticados ao serviço de uma causa que está para além do interesse nacional. Perante tantas evidências e coincidências, apetece-me concluir nestes termos: Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

Escrevo segundo a antiga ortografia.

Tomar, 23 de Outubro de 2017
Adriano Miranda Lima

Efeitos lactogéneos da bafureira

sábado, 14 de outubro de 2017
Nota ao Leitor: De acordo com o autor - o nosso prezado e sempre bem-vindo colaborador e clínico Arsénio Fermino de Pina - o texto que se segue destinou-se a uma revista de saúde infantil, publicada em Coimbra.
Pois bem, o artigo versa um tema já aqui publicado, a célebre festa ou a comemoração do sétimo dia de nascimento da criança, mais conhecida entre nós por: “Guarda Cabeça” ou “Festa de Sete”, celebração com fundas raízes  nestas ilhas. Recordemos a descrição de Augusto Casimiro, sobre o evento na ilha Brava e o texto do poeta José Lopes sobre as possíveis origens do facto em apreço.
 Ora bem, o texto de Arsénio de Pina vai nesta linha e com enfoque bem interessante sobre a amamentação do recém-nascido, coadjuvada pela também conhecida planta, bafureira ou bofareira.
Um convite ao leitor para uma leitura ilustrativa de certos usos e costumes do antanho do Arquipélago.


S. Vicente, 30 de Maio de 2017-05-30
                                                           Exmo Senhor Director da
Revista SAÚDE INFANTIL
                                                                                  COIMBRA
         A localização de um texto, do século XIX, enviado de Cabo Verde, por um irmão do Prof. H. Carmona da Mota descoberto na sua visita periódica a alfarrabistas, tratando dos efeitos lactogéneos da bafureira (planta do rícino, também conhecida sob o nome de bofareira, bofarêra, mamona, carrapateiro, catapúcia, etc.), na Revista Universal Lisbonense, 1ª série, Tomo II, 1842/1843, levou-me a fazer pesquisas até encontrar a confirmação da notícia num dos livros do escritor cabo-verdiano Germano Almeida. Fi-la chegar ao Prof. Carmona da Mota, que me tinha contactado a saber se conhecia essa acção da planta, tendo-me sugerido, ao enviar-lhe os elementos coligidos, que comunicasse os factos descobertos à Acta Pediátrica ou Saúde Infantil. Como continuo a ser assinante da Saúde Infantil, tendo até publicado na Revista “A Saúde das crianças em Cabo Verde”, de parceria com Bjorn Wenngren e Ingve Hofvander – separata de “Saúde Infantil”, nº 2, Setembro 1984, faço chegar esses factos à Revista que, se encontrar interesse neles, poderá publicá-los. Incluo recortes do livro do citado escritor, “Regresso ao Paraíso”, onde encontrei referências à tradição, outros textos, juntando alguns esclarecimentos da minha experiência como pediatra cabo-verdiano.
         Antes de mais, o texto descoberto: “Já se terá reconhecido pelos nossos artigos 176, 324 e 1173, a grandíssima utilidade que para a amamentação, especialmente nas misericórdias se poderá sacar da bafureira, se de véras há n´ella a lactígena virtude, que apregoam, e transplantada para o nosso clima a não perverte, continuando pois a pedir aos médicos e cirurgiões, que façam na matéria todas as possíveis tentativas, continuaremos ao mesmo tempo a ajuntar para este processo quantos documentos nos vierem à mão. A carta que abaixo transcrevemos nos foi graciosamente oferecida pelo Exmo Sr. Visconde de Sá da Bandeira, que foliando do cavalheiro que lh´a escreveu, nol-o abona por pessoa de toda a confiança, residente n´aquelle tempo na Ilha de S. Nicolau, e ao presente nesta cidade de Lisboa” CARTA : “Exmº Sr. Joaquim Marques, capitão de navios, e sua mulher D. Maria do Carmo Marques, naturaes d´este reino, foram para Cabo Verde em 1808 por causa da invasão francesa e estabeleceram-se em S. Nicolau em 1818 ou 13: teve esta senhora a infelicidade de perder a vista, um anuo depois, pouco mais ou menos, teve um filho por nome António: vendo-se ella impossibilitada de o crear, chamou uma mulher por nome Maria Ganela, que costumava a visitar a sua casa e fazer-lhe algum serviço como criada, e lhe pediu quizesse incumbir-se de amamentar seu filho; esta mulher contava então 71 annos de idade; não poz objecção, fez o tratamento com a planta lá chamada bafureira, e em S. Thiago jagué jagué; no terceiro dia veio-lhe o leite em muita abundância; e criou o menino forte e robusto, sem ter nunca mais pequena moléstia: os pais do rapaz ainda existem, e ele também: o leite da velha foi examinado por um médico inglez, que o achou excelente.
         Bem podia eu relatar a V. Exª centos de casos como este, e dar-lhe os nomes de muitos que foram assim creados por avós, tias, primas, e mesmo por algumas mulheres caritativas que não são raras n´aquellas ilhas; porém limito-me só a este caso por ser o mais extraordinário, em razão da grande idade da mulher. V.Exª pode afiançar isto em qualquer parte sem receio de ser desmentido. Sou com todo o respeito e amizade De. VExª, venerador e a migo obrigado”
                                                            João António Leite

         Lê-se no livro do Germano Almeida (natural da Ilha da Boavista),“A Família Trago”, o seguinte que corrobora o assunto acima descrito: “… Quando nha Ninha recebeu a nova de que o seu afilhado já estava a caminho, começou a acompanhá-lo cada dia com um carinho e cuidados cada vez mais redobrados, deslocando-se à casa dos Trago para pessoalmente fazer a fricção de azeite de purga na barriga da mãe, cuidando da planta de bofareira que mandou colher e guardar, porque explicava, o suadouro da bofareira não só servia para apertar as entranhas desconjuntadas da mulher pelo esforço de suportar durante nove meses uma criança a crescer dentro dela e depois pari-la, como para obrigar o organismo a reagir e a produzir leite em abundância”.
         Uma senhora da Boavista contou a um amigo meu, letrado nesses assuntos, que consultei, que as folhas de bofareira eram cozidas num bacio de barro, onde se sentavam as parturientes a fim de receberem o vapor produzido, o que melhorava a qualidade e a quantidade de leite materno. Ela mesma, aquando do nascimento da primeira filha, há 43 anos, submeteu-se ao tratamento com bons resultados. Não referiu a função higiénica e outra através da Delta de Venus (Anais Nin), possivelmente por pudor.”
         No romance do mesmo escritor, Regresso ao Paraíso, encontra-se a página 139: “Durante os seis primeiros dias após o nascimento a família podia ainda relaxar-se um pouco os cuidados. Porém, na noite do sétimo dia, a famosa “noite de sete”, era a noite do alerta máximo, porque sem dúvida a mais temerosa e aziaga, dado que nessa noite as bruxas perdiam completamente o tino e o recato, ficavam endemoniadas na raiva de saberem que estavam desbaratando a última oportunidade de se banquetearem à grande e à francesa com as tenras carninhas do bebé.” […] “Para as esconjurar nesse perverso desígnio e afastá-las do local onde estava a criança que perseguiam, era preciso que dentro da casa houvesse grande barulho, muita confusão de gritos, vivas e demais alarido por toda essa noite. Com cantos, com música, com festa, com muito grog e muita comida, com muito sal grosso atirado a espaços sobre o telhado, acompanhado de insultos e uma longa tesoura escondida debaixo do travesseiro do menino, e sobretudo com palavras cabalísticas “vai para o espaço superior, vai ensombrar a tua mãe, com este aqui não tens poder porque ele é da parte de Nosso Senhor Jesus, vocês são da parte d´Aquele Homem pelo sinal-da-santa-cruz”. […] “Mas finalmente chegava a meia-noite sem mais sobressaltos, a parturiente mais o bebé eram solenemente trazidos do quarto para a sala ao som dos instrumentos de corda, violino, viola, cavaquinho, que alguns convidados tinham levado, e ali, de pé, cerimoniosamente ouviam embevecidos a bela morna esconjuradora de todos os males que nhô Eugénio Tavares tinha dedicado à alma de um amigo, cantada em sentido e aliviado coro por todos os presentes na festa: Ná, ó menino ná/ sombra rum fugi di li/ Ná ó menino ná/ Dixa nha fidjo dormi/Sono di bida, sonho de amor,/ Ou graça, ou dor,/ Es é nós sorte…/ Se Deus, más logo, mandano morte, /Quem que tem medo/ Ta morrê cedo”, enquanto a madrinha, com a tesoura recuperada de debaixo da almofada, cortava o ar em redor do recém-nascido em todas as direcções, como forma de afastar e mandar para o espaço qualquer coisa ruim ou mal-intencionada que pudesse ter entrado e estar ali a rondar com intenções maléficas. E terminada a morna, mas sempre ainda ao som os instrumentos, todos, comovidamente e um por um, abraçavam e beijavam a mãe e depois os pezinhos do bebé, apertavam a mão do pai, e finda a sessão de cumprimentos continuavam a festa em alegria redobrada.”
         Há outros hábitos e costumes ligados à criança, que ainda se mantêm em praticamente todas as ilhas, embora menos frequentes, desde que se pôs de pé, o Programa de Saúde Materno-infantil e planeamento familiar (PMI/PF), após a independência, mas só transcrevo estes, resultado da tradição e experiências das pessoas. Realmente, e posso atestar isso por ter começado a trabalhar como clínico geral em várias ilhas desde 1967 até 1971, e somente em 1976 é que regressei ao país, com um interregno de cinco anos na especialização em Pediatria e Saúde Pública. Antes da PMI/PF, as mortes por tétano umbilical e hemorragia dos recém-nascidos eram frequentes por se utilizar can-can (rapé) e terra fina para facilitar a secagem do cordão umbilical, terra que veiculava, bastas vezes, esporos do Clostridium tetani, manifestando-se a doença (quase 100% letal) antes dos sete dias, bem como a hemorragia, também por essa data, período que o organismo do recém-nascido leva para adquirir autonomia na produção da Vit K endógena. Actualmente, como a vacinação antitetânica das mães é muito elevada em Cabo Verde, se administra vitK injectável aos recém-nascidos, e a acção da PMI/PF é eficaz, essas doenças são raríssimas, bem como o sarampo e a paralisia infantil, praticamente erradicados.
         A “noite de sete” também se chama, em certas ilhas, “guarda cabeça”.
Glossário:
Grog - aguardente de cana sacarina
Di li - daqui
Rum - ruim
Dixa  - deixa
Nha- meu, minha, senhora
Fidjo - filho
Es é nós sorte –esta é a nossa sorte ou sina
Nhô - senhor

Fontes de consulta:
Revista Universal Lisbonense – 2º volume
A Família Trago, de Germano Almeida
Regresso ao Paraíso, de Germano Almeida
Sobre o uso medicinal: Mamona – usos, efeitos colaterais, interacções e avisos, no Google Chrome
AECCOM, Anais, volume 1,nº 1 e volume 1, nº 2, 1999. Mindelo. Cabo Verde.

 S.Vicente, 31 de Maio de 2017                                                    
Arsénio Fermino de Pina

PS Encontro-me de férias, até fins de Julho, em S. Vicente, Cabo Verde. Email pinaarsenio@gmail.com


O CENTENÁRIO DO GIL EANES E O ESCANTILHÃO DA MEMÓRIA

sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Pela simples circunstância de ter preopinado sobre o tema concreto de uma das palestras agendadas para a comemoração do centenário do “Liceu Nacional de Cabo Verde”, obliterei, ou adiei, o momento de manifestar publicamente o meu apreço de cidadão por aqueles que aceitaram assumir a organização desse evento em nome da nação cabo-verdiana. Por isso, faço-o agora, com o sentimento de orgulho e gratidão de que não pode abdicar nenhum conterrâneo.
Quando, no meu texto (1), focalizei a atenção num excerto da entrevista de Amiro Faria para extrair elementos estruturantes da minha argumentação, poderá ter passado a ideia de que pretendi conflituar ou afrontar as intenções que o meu ilustre conterrâneo propugna para o êxito da comemoração. Mas não, longe de mim semelhante propósito; tal seria absurdo, tanto mais que as suas palavras serviram-me apenas como função veicular. O meu objectivo era, e é, tão-só, o tema da palestra que se propõe Leão Lopes, não por discordar da temática em si − Liceu Gil Eanes, Consciencialização Política e Resistência Colonial, O caso “Semente de Manga”− mas por entender que é um exagero considerar o antigo reitor um caso paradigmático da repressão colonial. Mas sobre este tema voltarei mais adiante. Impõe-se é desde já assinalar que, como todo o cabo-verdiano, tenho Amiro Faria em alta consideração cívica, por aquilo que representa como cidadão e por tudo o que tem dado ao nosso país, como o atesta a actividade pública que já exerceu com comprovada competência e as valiosas ideias que tem exprimido sobre várias matérias de interesse colectivo.
Na verdade, reitero a minha absoluta discordância com a ideia de trazer o alegado “Caso Semente de Manga” para o pelourinho da fustigação pública. Não o faço por estar mandatado para defender ou justificar o professor Antero Simões, que não deve sequer imaginar o que escrevo e torno público. E enganar-se-á redondamente quem possa supor nas minhas palavras outra servidão que não aos ditames da minha consciência. É exactamente por eu ser também usufrutuário do legado cultural que o liceu Gil Eanes representa, que me julgo no direito de emitir uma opinião própria sobre o caso. Faço-o com o distanciamento temporal indispensável a uma avaliação fria e objectiva dos factos, conforme aconselha Foucault no seu conceito de Problematização. E também com a autonomia intelectual e moral que desprenda a minha narrativa de qualquer tutela, seja ela política, seja ela determinada por qualquer preconceito, modismo ou corrente de opinião. Eu julgava o Antero Simões já fora do mundo dos vivos até ter tido um contacto com ele por mera casualidade e conforme expliquei no artigo anterior. O que, de facto, me surpreendeu foi notar-lhe um renovo de alma quando soube que um antigo aluno cabo-verdiano quis saber do seu destino.
Ora, é por estar em causa a dialéctica dos meios e dos fins que me permiti questionar se, de facto, o “Caso Semente de Manga” deve ser ressuscitado na comemoração do centenário. Eu julgo que não porque reafirmo que o professor foi mais vítima das circunstâncias do que o tal carrasco com que foi conotado. É que para mim ele foi mal escolhido para reitor, e pior ainda se a intenção foi mesmo incumbi-lo de uma “missão especial”, como é suposto. Não tinha idade e experiência suficientes para o cargo e faltavam-lhe sobretudo requisitos naturais de liderança, assim como uma estrutura psicológica ou emocional adequada. E isto é que me espanta porque não é concebível que o então governador, Silvino Silvério Marques, um homem de fina inteligência e oficial de gabarito, possa ter incorrido em semelhante erro de casting. De resto, o Silvino Silvério Marques não era seguramente um salazarista ferrenho, definia-se mais propriamente como um oficial imbuído de elevado espírito de missão e, sem ponta de dúvida, um humanista, como o provou preocupando-se mais com o resolver o problema da fome na nossa terra do que com o policiamento da ordem do Regime.
Conforme refiro no artigo anterior e referenciado no fim deste texto, Antero Simões é hoje um homem fragilizado pela idade e corroído pela mágoa do seu insucesso em Cabo Verde como reitor de liceu, e, por sinal, deixando transparecer facilmente a insegurança emocional e a fragilidade psicológica que lhe devem ser congénitas e não o recomendavam para o cargo. E para agravar o seu estado, perdeu recentemente a esposa, vítima de cancro. O que lhe parece dar ânimo, talvez suprindo a solidão interior, é a sua intensa e profícua actividade literária, tendo produzido obra biográfica de valor inestimável sobre o Eça de Queirós nas suas múltiplas facetas, de homem, escritor, polemista e cidadão.
Sucede que depois de ler o texto de alguém que era um adolescente de 15 anos à data dos acontecimentos, reclamando a co-autoria do assalto às instalações do liceu, reforçou-se-me a convicção de que o episódio que espoletou a queda do reitor, foi mais um acto de rebaldaria e irreverência juvenil do que uma acção de resistência pensada e organizada contra a “opressão colonial”. Que leitura faço daquele texto? Desculpar-me-á o seu autor mas penso que entram aí doses de efabulação e metonímia. O autor, agora homem maduro e certamente exemplar cidadão, gaba-se e baba-se pela autoria de uma façanha em que não vejo motivo nenhum para gáudio ou vanglória. Quando se lêem palavras do aludido texto deste teor, ispsis verbis: “Queremos os mondrongos fora da nossa terra"; "Queremos reitor caboverdeano"; tem de se denunciar um flagrante sentimento xenófobo e um radicalismo que surpreende quando comummente se glosa o espírito de tolerância e convivialidade dos mindelenses. Será para mim decepcionante se se confirmar que aquele sentimento xenófobo foi menos um arrobo juvenil instantâneo do que um sentimento que o adulto de hoje amadureceu e cristalizou no espírito. Porque será então caso para lhe perguntar o que pensariam os autores da bravata de homens que foram grandes beneméritos para a nossa terra como o Dr. Regala e o Dr. Baptista de Sousa, também eles “mandrongos”, um imortalizado em estátua numa praça do Mindelo, outro no frontispício do hospital da ilha. Isto para não falar de outros mais que se inscreveram facilmente na nossa idiossincrasia e na esfera da nossa humanidade.
É certo que alguns alunos mais velhos tinham, na altura, cada um a seu modo e em grau variável, uma opinião crítica em relação à acção do reitor. Mas não creio que aqueles que, como eu, eram finalistas, pudessem enveredar por actos de pouca civilidade, que seriam contrários aos padrões comportamentais ou à maturidade psicológica que, embora em fase incipiente, estavam em processo de modelação nas nossas jovens personalidades. Desta maneira, defrontamo-nos com a ironia desta constatação: não fora o tal “assalto” ao liceu perpetrado por rapazes de quinze anos, provavelmente não se teria configurado a acção de “resistência anticolonial” que conduziu à destituição do reitor. Poderia vir a acontecer mais tarde, é certo, mas provavelmente em moldes diferentes ou por outras vias. É exactamente por isso que eu sugiro maior ponderação nos juízos que o “Caso Semente de Manga” possa suscitar, para evitar hiperbolizações, manipulações ou mistificações que levem a confundir actos administrativos precipitados, canhestros ou excessivos com propósitos de “repressão colonial”.
A vida é breve, o tempo e os acontecimentos fluem vertiginosamente e desaguam nesse silêncio onde procuramos rebuscar a memória, ordená-la e construir a história. Esta é mais fidedigna se apaziguarmos o ânimo e mantivermos a capacidade de lobrigar que a nossa condição humana sucumbe à sua própria incapacidade de se interrogar, quanto mais de julgar. Com isto tudo quero apenas sugerir que seja exaltado e celebrado, e muito bem, o papel que o Gil Eanes exerceu na nossa consciencialização cívica, e mais tarde política, mas sem entrar-se em endeusamentos ou diabolizações de meros peões de xadrez. Dê-se lugar aos grandes vultos da história do liceu Nacional de Cabo Verde, ignore-se o que não passa de episódio menor, transitório, perecível à fogueira da ilusão ou do delírio.
Em minha opinião, o velho professor, que diz ter a ilha de S. Vicente no coração, mais do que Angola, para onde seria compulsivamente transferido, foi apenas um peão de xadrez desacertado no tabuleiro do jogo. Foi mais vítima de uma má escolha administrativa para a função de reitor do que agente de “opressão colonial” aturdido nos trâmites da sua missão. Ele próprio reconhece que a sua vocação era ensinar e não administrar. Foi o que me disse com grande angústia visível no rosto, o que me leva a perguntar se ele não foi também vítima da política autoritária que terá pretendido servir com obediência acrítica.
Meus caros conterrâneos e antigos colegas de liceu, interposta a sugestão que as minhas palavras subentendem, deixemos que o escantilhão da memória nos trace a perspectiva mais correcta para revisitar e celebrar a história do Gil Eanes.

(1) Artigo intitulado O Alegado “Caso Semente de Manga”, Entre a Mistificação e a Politização, de Set/2017, publicado no jornal online Notícias do Norte e no blogue Coral Vermelho.

Tomar, 4 de Outubro de 2017
Adriano Miranda Lima





O ALEGADO “CASO SEMENTE DE MANGA” ENTRE A MISTIFICAÇÃO E A POLITIZAÇÃO

sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Porque pouquíssimos leitores conhecerão o significado e a razão da expressão em título colocada entre comas, passo a explicar. Trata-se da alcunha com que um aluno do antigo liceu Gil Eanes crismou o Dr. Antero Marques Simões (AMS), português, natural da Póvoa de Varzim, que foi professor naquele estabelecimento entre 1959 e 1963 e exerceu o cargo de reitor a partir de meados de 1962. A alcunha ficou a dever-se ao facto de o AMS usar o seu cabelo bastante liso colado à cabeça.
      Tudo isto só vem a propósito porque em entrevista publicada no jornal online Mindelinsite, o ilustre cidadão Amiro Faria, que integra a comissão organizadora das comemorações do centenário do Liceu Gil Eanes, afirmou, entre outras declarações:Além destes (palestrantes), o escritor Leão Lopes assume a tarefa de falar sobre a “Consciencialização política e resistência colonial – O caso do semente de manga”, que é um facto bastante notável de jovens que se rebelaram contra a presença colonial. No passado, o Liceu acolheu portugueses que deixaram boas recordações, caso do famoso professor de matemática Aristides Gonçalves. Mas, o Antero Simões, mais conhecido por ‘semente de manga’ era um homem da mocidade portuguesa, que pertencia e que estava comprometido com o regime que nos queria oprimir. Portanto, os estudantes revoltaram-se contra ele e não foi contra um português qualquer, foi contra um homem da máquina colonial opressora. Não era uma oposição anti-lusa, porque na altura tínhamos vários colegas portugueses e nunca houve quaisquer problemas com eles a não ser quando algum se arvorava de ser mais esperto e arrogante pelo simples facto de ser português”.
      Ora, antes de mais, surpreende-me que seja Leão Lopes a falar sobre o “Caso do Semente de Manga”, porque, adolescente dos seus catorze anos quando Antero Marques Simões (AMS) deixou o liceu, não foi seguramente seu aluno e mal deve ter conhecido a pessoa. Assim, Leão Lopes só pode construir e sustentar a sua tese com base em narrativa alheia, que pode ser legítima mas não necessariamente pautada pela objectividade e pela isenção. De facto, a avaliar pelo título da sua palestra, receio que o autor se fundamente apenas em fontes que podem estar contaminadas por preconceitos ou sentimentos pessoais que nem o tempo conseguiu delir. Possivelmente, as atoardas e objurgatórias de outros tempos ainda retinem no diapasão de algumas consciências que detestavam o professor pelo seu modo peculiar de ser ou pela sua identificação com o ideário salazarista de um Portugal uno do Minho a Timor, que ele não ocultava mas também não publicitava ostensivamente.
      Da minha parte, nunca alimentei qualquer animosidade contra o AMS nem seria capaz de me referir à sua pessoa utilizando aquela alcunha. Do que mais guardo memória é das suas notáveis qualidades como docente e pedagogo, enquanto meu professor de português nos antigos 4º e 5º anos do liceu. Não me lembro de alguma vez o AMS ter feito qualquer alusão à política do Estado Novo nas aulas, de forma explícita ou sequer insinuada. Eu ignorava completamente o rumo que a sua vida tomou após sair de Cabo Verde e nunca mais soube dele até receber, há três anos, o telefonema de um correspondente meu residente em França. No facebook, ele lera que um tal Dr. Antero Simões ia lançar um livro na Póvoa do Varzim e pretendia que eu averiguasse se se tratava do “Semente de Manga”, expressão de que fez uso com jocosidade e disparando uma gargalhada.
      De facto, prometi averiguar e nesse sentido enviei um e-mail para a Biblioteca da Póvoa de Varzim, por ali ter ocorrido o lançamento do livro. Deixei os meus dados pessoais e contacto telefónico para me poder ser prestada a informação pretendida. Para minha surpresa, receberia dias volvidos um telefonema do próprio AMS, mostrando-se radiante e mesmo exultante pelo facto de um antigo aluno de Cabo Verde ter procurado saber da sua pessoa. Contou-me o que lhe aconteceu depois de sair de S. Vicente e ficámos a corresponder por correio electrónico. Fui logo convidado para o lançamento do seu livro (sobre Eça de Queirós) em Lisboa, de que me enviou um exemplar por correio. Na correspondência electrónica que se seguiria, a mágoa do que lhe aconteceu em S. Vicente vinha sempre ao de cima e percebi tratar-se de uma ferida na alma que nunca cicatrizou e vai manter-se viva até ao fim da sua existência. No entanto, em todas as nossas conversas, arranjava sempre pretexto para falar de Cabo Verde e do carinho que sentia pela nossa gente.
      No meu entendimento, à volta da pessoa do AMS, e à revelia das qualidades do docente, criou-se uma imagem negativa proporcionada por duas contribuições distintas. De um lado, a chacota que a alcunha suscitava entre os alunos irreverentes e quantas vezes pródigos em atitudes parvas, descabidas e alarves. De outro lado, os juízos que alguns alunos mais velhos tendiam a fazer sobre alguém que, sendo “mandrongo”, só poderia personificar no liceu a autoridade colonial (ou colonialista) e repressora, a partir do momento em que foi nomeado reitor e, em acumulação, encarregado da Mocidade Portuguesa (MP). Naturalmente que os julgamentos que uns e outros, como eu, poderiam formular em questões desta natureza, dependiam de preconceitos que são do foro íntimo e de horizontes mentais que cada um construía à medida das suas capacidades intelectuais, mas sempre com as naturais limitações impostas pelo meio e pela censura política. Contudo, não creio que a essa época algum de nós estivesse imbuído de uma crença política alicerçada em sólido conhecimento filosófico ou doutrinal ou balizada por uma convicção razoavelmente esclarecida.
      Indirectamente, a alcunha “Semente de Manga” é que espoletou o incidente que originou a destituição de AMS do cargo de reitor. Com efeito, certo dia de 1963, um aluno, logo de manhãzinha, lembrou-se de pregar na porta de entrada do liceu a semente de uma manga. O estabelecimento não se abriu à hora normal e os alunos foram-se aglomerando no exterior, aguardando qualquer resolução. A dado passo, a mole humana dos alunos abandonou o local e rumou para a rua de Lisboa, com um ou outro a gritar palavras de ordem contra o reitor. O acontecimento teve impacto imediato e o reitor foi logo suspenso das suas funções. Seguiu-se um inquérito ou averiguações em que eu e alguns alunos, por sermos finalistas do liceu, fomos chamados a depor.
      Ora, temos de analisar os factos pondo de lado as paixões e os preconceitos, sem o que cilindramos a verdade ou a manipulamos ardilosamente em função das nossas conveniências. E a verdade é que, em minha opinião, o AMS não correspondia ao estereótipo que alguns dos meus companheiros julgavam. Só não o quererão ver os que, infelizmente, ficaram presos no tempo ou então aqueles em que o preconceito político ou de outro jaez mora de pedra e cal, renitente mesmo, impedindo a descolonização definitiva dos espíritos.
      Com efeito, à volta do AMS criou-se e mantém-se, a meu ver, uma imagem distorcida sobre a sua verdadeira natureza humana, em simultâneo com uma total omissão das qualidades que evidenciou como docente no nosso Gil Eanes. Quanto à questão política que é invocada para fundamentar a intenção de o julgar sem apelo nem agravo, e de o vilipendiar, o AMS, na verdade, acreditava, como certamente ainda acredita, no ideário salazarista de um Portugal utópico do Minho a Timor, num absurdo autismo face ao caminhar da História. Contudo, a sua visão era a de um homem crédulo nas virtudes que ingenuamente supunha existir na doutrina salazarista, talvez aceitando como um mal necessário a ausência de liberdades cívicas e a repressão política. É que no seu espírito abrigava uma versão do salazarismo a que emprestava apenas colorações humanistas, acreditando num espaço comum onde haveria uma igualdade de direitos entre os povos, sem distinção de raças ou etnias. Tendo nascido no Estado Novo e sido educado segundo a sua cartilha, aliás, como todos os portugueses da sua geração, mesmo os naturais das colónias, AMS não via qualquer malefício na política de Salazar e não pertencia ao rol dos seus críticos e menos ainda daqueles que a condenavam e combatiam. E o que é curioso, se não irónico, é que AMS não pertencia àquelas ricas e influentes famílias que apoiavam e patrocinavam a política salazarista porque colhiam os dividendos da exploração dos povos das colónias. Pelo contrário, homem bom e simples, sem qualquer presunção, fez saber em Cabo Verde que era filho de um alfaiate e neto de pescador. Ora, um professor de liceu “mandrongo”, vaidoso e pretensioso, como o querem catalogar, não chega a uma colónia e confessa a sua modesta origem social assim de forma tão explícita e natural.
      Pelo que precede, acho abusivo, se não mesmo uma monstruosa falácia, afirmar que o professor era “um homem da máquina opressora colonial”, conforme as palavras de Amiro Faria, o que pode sugerir ao leitor a ideia de que ele foi colocado no Gil Eanes para doutrinar jovens e adolescentes. Por outro lado, considerar que o cargo de chefia que passou a deter na Mocidade Portuguesa (MP) era prova cabal da suspeição que sobre ele recaiu, não constitui argumento sério. Não se esqueça que houve entusiastas e antigos filiados da MP que aderiram ao PAIGC e à independência de Cabo Verde nos moldes precisos em que ela ocorreu. Certo cidadão que foi outrora um destacado graduado da MP viria mesmo a exercer um cargo importante na segurança (ou polícia política?) do novo estado independente. Bastou um conveniente virar de casaca a seguir ao 25 de Abril. Bem afirmou William Shakespeare, aludindo à hipocrisia, que “os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são”.
        Na correspondência que estabeleci com AMS, o professor confessou-me que antes de ser reitor no Gil Eanes nunca pertencera sequer àquela organização e que só aceitou o cargo porque foi uma exigência para ser nomeado reitor pelo governador de então. Eu aqui não posso ajuizar porque desconheço em absoluto o que se passou em sede de decisão. Em todo o caso, não houve notícia de que o responsável local pela MP tivesse procedido nesse cargo de forma muito diferente dos seus antecessores. Percebi, por aquilo que me confessou, que ele via a MP como um espaço onde os jovens se entretinham em actividades lúdicas, desportivas e formativas. O que julgo fez entornar o caldo foi ter exigido a obrigatoriedade da comparência à Milícia, que era a versão da MP a partir dos 18 anos ou do sexto ano do liceu, sob pena de perda de ano por faltas. No entanto, não me recordo de ter havido sanção disciplinar contra alguém que tenha incumprido. Mas a verdade é que foi sobretudo essa medida, ou o modo desastrado como foi imposta, que fez espoletar uma certa má vontade contra o reitor, porventura agravada pelo facto de ser “mandrongo”.
      E chegado aqui vou fazer uns juízos, naturalmente subjectivos, por aquilo que observei no homem que é hoje o velho professor. Julgo que o ASM denota uma certa fragilidade emocional que nem com a idade ultrapassou. A sua estrutura psicológica talvez não o recomendasse para o cargo de reitor à idade que tinha na altura (trinta e três anos), e a verdade é que não se saiu bem no seu desempenho. Foi o próprio AMS que, remoendo a sua mágoa, me confessou esta pergunta que viria pelo tempo fora a fazer constantemente a si próprio: “Antero, quem te mandou aceitar seres reitor se eras ainda muito jovem e se o que mais adoravas era ensinar aquilo que sabias?”. Ao fazer esta afirmação, deu a entender, reconhecendo a sua falha, que como reitor devia ter tido uma atitude algo mais cautelosa e mais prospectiva, antes de introduzir as alterações com que, no seu ponto de vista, tencionava uma melhoria do funcionamento do liceu. Direi que ele não terá avaliado convenientemente todos os parâmetros do circunstancialismo do meio social local.
      Por tudo o que precede é que me parece errado rotular o AMS de ditador ou instrumento de repressão colonial, porque em boa verdade, e conforme vai ficando nítido a quem queira ver, esse papel não se lhe quadrava. E nem o desejaria porque era, e é seguramente, um ser de boa natureza. O que é de facto questionável é a razão por que foi nomeado reitor quando havia colegas mais velhos e mais antigos no estabelecimento de ensino. Foi porque ele era “mandrongo”? Ou porque mais ninguém pretendia o cargo? Desconheço em absoluto.
      Demonstrando-me que nutria um especial sentimento de solidariedade para com a nossa gente, fez-me estas revelações: pagava à sua criada bem mais do que era praticado no meio porque conhecia bem as suas necessidades pessoais; ajudou financeiramente umas poucas de vezes o guarda do clube de ténis onde aprendeu a praticar a modalidade; deu aulas particulares grátis de latim, à noite, ao Corsino Fortes, na altura em que este se preparava, como adulto, para ir para o curso de Direito em Lisboa; a sua mulher, Maria das Dores, que era professora mas não exercia, cosia à noite fardas da MP para os alunos que tinham dificuldade em a comprar. Isto era procedimento de alguém arrogante, distante e colonialista de maus fígados?
      Pois, acredito que se os detractores deste homem conhecessem bem a sua verdadeira índole, a comissão organizadora não aprovaria que um dos palestrantes o elegesse como bombo da festa da comemoração do centenário do nosso Gil Eanes. Quando fui ao lançamento do seu livro em Lisboa, para que fui convidado, estiveram presentes muitos dos seus alunos de Angola, alguns deles mestiços. Chalaceavam com ele, ao encontro do seu jeito peculiar de ser, e todos demonstravam especial carinho pelo antigo professor, sem nenhum sinal de hostilização ou de dívida por cobrar. Nesse evento esteve também presente uma criada que o AMS teve em Angola, cabo-verdiana, acompanhada de um filho. A este respeito, confidenciar-me-ia que quando foi transferido para Angola fez questão de procurar lá uma criada que fosse filha das nossas ilhas para assim poder matar as saudades. No fim, reparei que ele puxou da carteira para dar algum dinheiro à mulher, já idosa.
      Por conseguinte, há necessidade de clarificar os factos para evitar mistificações em torno de uma pessoa que pode ter sido mais vítima das circunstâncias do que o algoz em que alguns o querem transformar. Nesse sentido, sugiro acima de tudo ao Leão Lopes que evite pessoalizar quaisquer extrapolações políticas que pretenda na sua tese, evitando sobretudo que o velho professor, escritor e estudioso incansável e profícuo do Eça de Queirós, com várias obras publicadas, seja desnecessariamente achincalhado e vexado, o que não será nada dignificante para o palestrante, tanto mais que a pessoa visada tem actualmente uma provecta idade e, estando ausente, não pode justificar-se e defender-se. Em minha opinião, incorrer nesse erro atentará contra a dignidade de um acto que se pretende de celebração e enaltecimento da história do ensino em Cabo Verde e não de ajuste serôdio de contas com pessoas que bem ou mal serviram o liceu Gil Eanes. De resto, acho desapropriado que o palestrante faça uso de uma alcunha −“Semente de Manga”− que terá sido criada por algum rapazola possivelmente carente daquela educação e princípios básicos que nem todos tinham a possibilidade de adquirir no seio familiar.
      Tenho a certeza absoluta de que Baltasar Lopes da Silva e António Aurélio Gonçalves, dois vultos notáveis da história do liceu Gil Eanes, dois ícones da nossa cultura, concordariam comigo.


Tomar, Setembro de 2017

Adriano Miranda Lima

A propósito do texto: “O Descalabro do Ensino em Cabo Verde”

domingo, 13 de agosto de 2017


Tendo aqui partilhado recentemente, no meu modesto blogue, um estado de alma, um desabafo enquanto avó, mãe e filha destas Ilhas preocupada com o futuro do país, recebi muitas mensagens que revelavam afinal, a mesma preocupação.
Neste particular, regozijo-me, pois verifiquei à posterori, que a visão é real, e foi ao encontro de muitos pais e avós, antigos alunos dos liceus, e que também tristes com o estado a que as coisas chegaram (e estão!), fizeram-me  saber as suas inquietações e os seus desassossegos, e por isso pensei: Afinal não sou uma cavaleira solitária nesta batalha! Podemos contar ainda com uma sociedade civil  activa e preocupada com o país e  com avós e pais ainda  participantes e ávidos por um debate específico – a  Educação – que é de toda a Nação.
Um Bem-Haja a todos, (queridos amigos, colegas, antigos alunos, ilustres conhecidos) pois os vossos comentários, em todos os sentidos, enriqueceram o despretensioso e bem simples texto inicial!
No entanto, infelizmente, em Cabo Verde – nós temos um longo caminho a percorrer, e com o descalabro do ensino nem sei se lá chegaremos tão cedo − permanece a necessidade de tudo, ou de quase tudo, partidarizar (não é politizar, que é algo elevado) o que acaba por desfocar o importante do assunto a debater...
Ao ter, a certa altura do meu desabafo, escrito algo como: “Este conjunto de fenómenos, a que chamarei de derrapagem do ensino (?) cabo-verdiano, pode  ser datado, com pouca margem de erro, de há quase década e meia atrás e tem vindo a acontecer num ritmo crescente e assustador.fui de forma surpreendente confrontada com o associar deste facto a um determinado governo do meu país!
Longe de mim a relação com qualquer governo, partido politico ou algo parecido. É que tal matéria assim associada, não faz parte das minhas cogitações. Parafraseando o brasileiro: “nem tou aí” − ainda por cima tratando-se de um assunto de transcendente e de crucial importância para o desenvolvimento de gerações de cabo-verdianos, como é a Educação.

A responsabilidade é de Todos!
A Educação ou o Ensino Público é um desígnio nacional, e  a ser um desígnio ele não é partidário,  nem ideológico,  mas de toda a Nação e de  forma convergente.  É esta a minha linha de pensamento.
De facto, estou tão afastada da política, e mais ainda da política partidária que para mim a relação com qualquer governo, partido politico ou algo parecido, de forma direccionada é algo sem qualquer nexo, nesta minha etapa de vida.
Estou sim, muito próxima, para não dizer demasiado próxima, da minha condição de Avó, e este horizonte temporal − permitam-me o prosaísmo − só surge com a entrada da minha neta mais velha na 1ª classe do Ensino cabo-verdiano, há cerca de década e meia! Mas aceito, sem qualquer rebuço, que venham de mais longe, os efeitos nefastos do mau ensino público cabo-verdiano.
Ao mesmo tempo, mantenho-me fiel à minha condição de antiga professora, (tenho contactos frequentes com antigos alunos que me falam com tristeza da escola actual dos filhos) e não abdico da profissão que abracei e exerci com muita devoção nem de ser cidadã activa − enquanto Deus mo permitir − e pensar os problemas da escolarização de jovens alunos, que observo esperançosos, quando se dirigem diariamente à sua escola, no convencimento de que dela sairão mais ricos no saber e em conhecimentos.
Essas são as minhas reais e, ouso acrescentar, constantes preocupações.
Partidos? Governos?... Muito importantes, sim, mas igualmente, passageiros, transitórios e transitivos. E também, e felizmente, mutáveis! Isto não obsta que deva reconhecer que uma boa política educativa, tem de emergir de entre as principais preocupações governativas.
Por isso reitero, o bem-haja a todos. Gostaria de destacar o Jornal «Expresso das Ilhas», o Nuno Duarte Rodrigues Pires, a Solange Lisboa Ramos, o Ângelo Barbosa, pela divulgação feita nas redes sociais desse meu singelo desabafo acabando por lhe dar um estatuto e uma elevação que muito apreciei.


A Condição de Ilhéu

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

- o caso de Cabo Verde, visto através dos seus poetas -
Solicitada a escrever sobre a condição de ilhéu, questionei como abordar o assunto? Através de uma revisitação ao passado? Sim, mesmo que nascida e vivendo em ilhas e mais particularizado, numa ilha; ainda que a condição de ilhéu pudesse ser naturalmente parte estruturante do nosso ser ontológico; ainda assim, ao tentar hoje escrever sobre a condição de ilhéu, imaginei-a como algo que se havia passado há muito tempo e situei-a num tempo que já ficou muito muito atrás...algum anacronismo nisto? Talvez.
A noção de um conceito dinâmico e evolutivo ganhou ênfase, no mundo globalizado. Para mim era real a condição (de ilhéu). Tratava-se de  uma singularidade que nos distinguia do habitante continental. E mais verosímil se tornava, e se acentuava  quando reiterada na leitura e no estudo dos textos dos ensaístas, poetas e romancistas cabo-verdianos.
O que tenho agora  como certa é que a percepção da condição de ilhéu alterou-se de tal forma que mesmo a que havia em mim fixada se transformou. Daí que, em sérias dúvidas, terei de recorrer ao “baú de memórias” e dela  retirar algumas  “enferrujadas” pelo tempo.
Vale neste contexto – acompanhada também por uma desperta consciência – dizer que o assunto já não será escrito com estes traços, pela nova geração de cabo-verdianos.  Para eles – com o espectaculoso desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação quase instantâneas, à velocidade de um “clic” tanto inter-ilhas, como com o mundo – essa condição de ilhéu, assim posta como aqui vai, ser-lhes-á eventualmente estranha e arcaica. E provavelmente matéria desconhecida, sobre a qual possivelmente, pararam vez alguma para pensar. Mesmo vivendo numa ilha. Pertence ao passado dos seus ascendentes.  Configurada, pela geração actual de cabo-verdianos, funcionará eventualmente, como uma “arqueologia romântica.”
E assim me quedo nesta exigência que devia ser reflexiva de algo que afinal, apenas conheço  empiricamente.
Apesar de os tempos hoje também serem diferentes em Cabo Verde e mesmo com a globalização a acontecer também nestas pequenas ilhas atlânticas, gostaria de partilhar com o leitor e num pequeno àparte, um mini-inquérito feito meio ao acaso, em encontros de rua, com conhecidos e amigos. Andava eu à procura de pessoas que nunca tivessem saído de Cabo Verde. O que  já vem sendo uma raridade. Seriam elas  as visadas no meu propósito do improvisado inquérito e para quem ainda pudesse subsistir, alguma “réstia” da citada condição do ilhéu ainda viva e ainda palpitante de que pudessem dar testemunho.  Encontrei poucos, já na faixa etária chamada de meia-idade, a quem fiz as seguintes perguntas: “ Já sentiu alguma vez “pesar-lhe” a sua condição de ilhéu? A ilha como um cerco? Como imagina Portugal? E os Estados Unidos?”
Das respostas que considerei com interesse, embora reconheça que nem chegam a constituir-se em amostragem, registo aqui apenas duas. Uma, a de um técnico agrícola, de 59 anos de idade, nunca saiu de Cabo Verde. Sobre a condição de ilhéu, respondeu que durante os anos que viveu (a infância e a adolescência) num povoado perdido nos recessos da ilha do Fogo, de nome Queimadas, onde as novas do mundo só chegavam através da rádio, (para quem a possuía) e do “americano” torna-viagem, com ar próspero e bem vestido. “Aí sim, ali olhava muito para o mar e para a linha do horizonte.” E acrescentou que mesmo as cidades de Mindelo (ilha de S. Vicente) e a da Praia (ilha de Santiago, lhe pareciam distantes, um outro mundo; e que a imagem que tinha dos Estados Unidos da América era “de uma mesa farta cheia de iguarias para todos os paladares. E a comparação continuou: “como nos anos em que chovia bem e as ilhas produziam com abundância.” E Portugal? Como imaginava o país quando jovem? E agora? A resposta não se fez esperar: “Aqui, neste particular, trata-se de um caso sentimental. Permanece na minha imaginação da mesma maneira que antigamente. Porque sentia Portugal e continuo a senti-lo como perto/longe de nós. Tenho lá muitos familares. Sempre pensei que quando tivesse um bom pé-de-meia, haveria de ir conhecer Portugal. Para passear mesmo. Ainda não aconteceu. Mas não perdi fé.”
A segunda, de uma colega minha, professora, de 69 anos, perguntada se antes de ir a Portugal para a Universidade, se se sentiu alguma vez “ilhada.” Respondeu-me: “vivi e cresci na cidade da Praia. Nem conhecia antes de ir para Portugal sequer o interior da ilha de Santiago. Só  adulta, profissional de volta à terra, é que conheci as restantes ilhas. Logo, saí deste pequeno espaço urbano directamente para a então grande Metrópole. Mas mesmo assim nunca havia parado para pensar nisso.Tomei consciência disso, da condição de ilhéu/prisão do mar, por um insignificante episódio. Quando, nos idos 60 do século XX, em Lisboa, partilhava o quarto num Lar de estudante com uma colega moçambicana, que falava orgulhosamente do “tamanhão” do seu país e certa vez provocou-me desta maneira: “Credo! Eu, se vivesse numa ilha como a tua, eu seria uma depressiva. Acabaria por morrer...” Respondi-lhe que nunca  me havia sentido assim na minha terra. Mas, se calhar, não o tinha consciencializado ainda, antes dessa estranha chamada de atenção de que nunca mais me esqueci.” Concluiu a minha colega.
Eis pois, duas brevíssimas ilustrações das conversas havidas a propósito do tema. Mas para melhor situar os  depoimentos dos meus informantes, esclarecerei que eles tiveram lugar, na cidade da Praia, na ilha de Santiago. Tivesse eu tido por exemplo, o ensejo de entrevistar gente nas outras ilhas, e como escolha, a ilha/cidade que é S. Vicente, a qual, ainda hoje, os seus habitantes guardam nostalgicamente, recordações de um passado cosmopolita e mais virado para o mundo largo, dado que a sua cidade portuária, Mindelo, albergou no seu Porto Grande na década de 30, 40 e 50 do século XX, significativo movimento de barcos que cruzavam o atlântico. Mindelo  fora outrora centro da cultura e das artes no Arquipélago.   Era  ao tempo, uma urbe de forte influência “europeia e sul-americana.”  O país de eleição, para a emigração dos mindelenses era a Holanda. Diferentemente das ilhas de Sotavento ( sobretudo, Fogo e Brava) viradas para os Estados Unidos. Logo, as respostas seriam com outras abordagens, espelhando eventualmente uma visão cosmopolitizada que ficou na memória dos mais antigos, colhida, como observou Jorge Barbosa: “(...) nesse ar de outros climas que  trazem os passageiros / quando desembarcam para ver a pobreza da terra (...)”  (Poema do Mar. In Ambiente, 1941).
Fecho este àparte, que não correspondeu em parte maior ao que pretendia, e volto a  recentrar o caso do Arquipélago de Cabo Verde, numa perspectiva mais geral, ancorando-me desta feita, em abrigos mais seguros na ilha / mar / veleiro / falucho, plasmados nos textos/poemas dos poetas do antanho das ilhas e mesmo  em alguns ensaios deixados pelos pensadores e investigadores da fenomenologia ilhoa.
É generalizada a convicção de que foram e são os Homens de/e da cultura, que a seu modo, com os dons e os instrumentos que à época, o seu saber, e os meios que existiam lhes proporcionaram, os que mais reflexivamente anotaram e registaram o que aconteceu ao “estar” e ao “ser” do cabo-verdiano, modelados pelas pedras duras e secas destas ilhas atlânticas.
Para iniciar, apontaria um caso que faria supor, pelas razões que a seguir se explicam que disso ou, desse “mal” não “padecesse.” Trata-se do poeta luso-cabo-verdiano, Daniel Filipe. Nasceu em 1925, na ilha da Boa Vista e faleceu em Lisboa, ainda novo, aos 38 anos de idade, em 1964. Na antiga Metrópole, Daniel Filipe fez os seus estudos e foi funcionário do Minstério do Ultramar.  Mais conhecido, nos tempos do Estado Novo, pelo seu célebre e muito declamado poema, « A Invenção do Amor». Daniel Filipe, apesar da brevidade da sua vida, ainda assim, deixou uma significativa obra poética. 
De acordo com os seus biógrafos, entre os quais, destaco e cito Manuel Ferreira, (vide «No Reino de Caliban» Vol. I 1975) é quem nos informa que Daniel Filipe, de seu nome completo, Daniel Damásio da Ascenção Filipe, chegou criança ainda – “com cerca de 2 anos de idade” – a Portugal, levado pelo pai, deportado na Boavista, Coronel médico, Gonçalo Monteiro Filipe. A mãe, Rita Maria Ascensão,  natural da  ilha das dunas, ali permaneceu. Seguindo os seus biógrafos, por vontade paterna, cortada foi a ligação materna.
Relevem-me o ter alongado nestas notas biográficas do poeta. Mas isso tem um propósito. Estes dados, ajuntados ao facto de ter saído de Cabo Verde ainda bem criança; “cortado” o cordão umbilical com a terra/mãe; de ter vivido sempre na grande (para nós assim era mensurada) Metrópole, teriam feito dele, muito naturalmente, um poeta que consigo, não carreasse à partida e numa lógica de vivências outras, a “condição” de ilhéu. Mas estranhamente, ou não, o poeta Daniel Filipe, que à ilha não retornou; por conseguinte não a vivenciou; é no meu entender e nos poemas dedicados à terra-mãe ou mais exactamente, à ilha-mãe, à Boavista – um poeta sofrido na condição de ilhéu. O poeta (re)age como se tivesse “petrificada” dentro do sua “poésis” uma condição inexorável de ilhéu interiormente expatriado.
Da obra poética virada para Cabo Verde, distinguem-se as colectâneas: «Missiva» (1946); «Marinheiro em Terra» (1949); «A Ilha e a Solidão» (1957). A evocação da mãe-ilha, atravessada por uma melancolia envolta em saudade, mais um certo sentimento de orfandade por uma infância fora do “habitat” insular, surge inexpectavelmente descritos com o à-vontade de quem disso comungou teluricamente e os (re)lembra merencoriamente.  No fundo, e tal como disse Manuel Ferreira, nestes poemas, Daniel Filipe “retoma a caboverdianidade.” Pois bem, o poema Ilha, a seguir transcrito, traz-nos a lembrança/saudade, que imagina da ilha, “distante ainda que não parta!” Como que numa espécie de exercício de reminiscência, assim fala o poeta: “Ilha, no azul líquido é somente /um ponto anónimo da carta./ Ô minha fala inconsequente! / Saudade morna do ausente, / distante ainda que não parta! / O horizonte é linha de água / por estrelas-peixe enodoada. / Se me recordo em bruma e mágoa,/ à solidão da ilha trago-a /dentro de mim petrificada.”(A Ilha e a Solidão, 1957)
Atente-se nos dois últimos versos, “à solidão da ilha trago-a / dento de mim petrificada” E aqui sugerido o insular inexpugnável do seu “eu,” intimamente exilado. Mais, essa sua parte insular leva-o a descrever as aventuras e as desventuras da pesca da baleia assim, como quem as tivesse vivido a partir dos campos e da orla marítima, da pequena ilha. O poema/narrativo: Romance de Tomasinho-Cara-Feia assim no-lo assevera: “Farto de sol e de areia, / que é o mais que a terra dá, / tomasinho-cara-Feia, / vai prá pesca da baleia. // Quem sabe se tornará? // Torne ou não torne, que tem? / Vai cumprir o seu destino./ só nha Fortunata, a mãe,/ que é velha e não tem ninguém, / chora pelo seu menino. // Torne ou não torne, que importa? / Vai ser igual ao avô. / Não volta a bater-me à porta; / deixou para sempre a horta,/ que a longa seca matou. / Tomasinho-Cara-Feia, / (outro nome, quem lho dá?) / Farto de sal e de areia, / foi prá pesca da baleia. / - E nunca mais voltará.” (A Ilha e a Solidão, 1957).
Curiosamente, a faina da pesca da baleia, precisamente o acontecimento que acabou por ser a primeira grande “viagem” que “quebrou” mais generalizadamente, o tal isolamento cósmico do ilhéu cabo-verdiano. Marcou por isso e de certa forma, a ruptura, o acrisolamento ilhéu até então do “cabo-verdiano anónimo,” dentro do casulo que era a terra/mãe. E foi também através da pesca da baleia, que a primeira grande leva de emigrantes cabo-verdianos “aterrou” clandestinamente ou não, em solo americano, nos meados do século XIX.
 Posto isto, como “húmus” relevante de parte da sua poética, coloca-se a seguinte interrogação: Será que Daniel Filipe teria carregado no seu ainda incipiente «ethos» materno insular – arquétipos ilhéus – que poderão ter imbricações naquilo que se entende literariamente por reminiscências platónicas? Possivelmente.
Outro nome destacado da Literatura cabo-verdiana é Manuel Lopes (Ilha de São Vicente, 1907, Oeiras, 2005). Este sim, com uma prolongada e ampla vivência de ilhéu. Que até se alongou curiosamente, quando transferido profissionalmente, para a ilha do Faial nos Açores.
Manuel Lopes enquanto poeta e no “cerco” da ilha, ou melhor, ilhado física e psicològicamente, transpôs e interiorizou o fenómeno de forma muito clara e em textos diversos. Mas antes e em jeito de esclarecimento, vale dizer que sendo Manuel Lopes dos poetas mais representativos da condição islenha, também confessou no poema intitulado, “Poema de Quem ficou” dedicado ao “irmão” viageiro – de outros mares e de muitos mundos, o seguinte: “Eu não te quero mal / por este orgulho que tu trazes, / por este ar de triunfo iluminado/ com que voltas // O Mundo não é maior/ do que a pupila de teus olhos/ tem a grandeza/ das tuas inquietações e das tuas revoltas . // Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / (...) / que aquelas que conheceste... / Crispou as mãos à beira do mar / e teve saudades estranhas de coisas estranhas/ com bosques, com rios, com outras montanhas (...)” In «Cais de Quem ficou» Poemas de, 1936-1944.  É ainda no «Cais de Quem ficou» que se conhece o poeta-ilhéu. É disso figurativo o poema, Écran: “Para lá destas ondas que não param nunca, / atrás deste horizonte sempre igual, / no extremo deste sulco branco sobre o mar azul / (cinzento nos dias de ventania) / que as hélices deixaram, impelindo / o bojo inquieto do vapor, // (sonhos que pairam sobre abismos de ironia; / promessas dum mundo melhor / talvez caminho de algum dia...) // há gritos diferentes, / os olhos cheios de outra imagem do mundo (...) / que a distância do Atlântico dissolve antes de chegar; (...)
E como remate, ele clama e lamenta o não alcance da terra-longe promissora que afinal só existe virtualmente: “Ai este Atlântico triste / que nos deu a nostalgia / dum mundo que só existe / no sonho que ele povoou...” (in: Crioulo e Outros poemas, 1964).
Acercando-nos agora, com especial deferência, do enorme poeta das ilhas, que é para nós, Jorge Barbosa (ilha de Santiago, Cabo Verde 1905- Cova da Piedade, Portugal, 1971) terá sido o poeta que deste lado, dentro da ilha, fortemente sentiu o “cerco” da terra/mar. Igualmente terá sido o poeta que mais problematizou e sintetizou poeticamente a condição de ilhéu. E de tal modo o seu sujeito poético se sentiu apertado pela “cinta do Mar” que evoca o fenómeno em tom lamentoso, ao descrever os  malefícios do “Mar” que atormentam e castigam as gentes e a paisagem do Arquipélago. E assim os retrata e os transfigura no Poema do Mar (in: Ambiente, 1941)
Mas antes de transcrever os versos do poema citado, fazia aqui, e numa espécie de  singela curiosidade, uma pequena nota: Jorge Barbosa era funcionário aduaneiro e foi-o nomeadamente, nas ilhas do Fogo, da Brava, de S. Vicente e do Sal. O facto de ter estado a trabalhar nos edifícios das alfândegas, estes situados, regra geral, entre a terra firme e o “cais-de-ver-partir;” que influência terá tido na sua escrita, dado que é notório que o poeta imprime na feitura de muitos dos seus poemas - de forma pictórica e sinestésica - imagens captadas de um real quotidiano, em que o movimento do porto; o barulho do cais; os apitos e a partida de barcos; as falas dos passageiros, misturadas às dos curiosos que observam “suspirando,” os barcos ancorados e os que partem rumo ao mar alto que são referentes costumados na sua observação poética?
Agora segue transcrito, O Poema do Mar:  “O drama do Mar,/ o desassossego do Mar / sempre / sempre / sempre / dentro de nós! / O Mar! / cercando / prendendo as nossas Ilhas / desgastando as rochas das nossas Ilhas! / Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores, / roncando nas areias das nossas praias, / batendo a sua voz de encontro aos montes, / baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas... // O Mar! (...) deixando nos olhos dos que ficaram / a nostalgia resignada de países distantes / que chegam até nós nas estampas das ilustrações / nas fitas de cinema / e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros / quando desembarcam para ver a pobreza da terra // O Mar! / a esperança na carta de longe / que talvez não chegue mais!... // O Mar! / saudades de velhos marinheiros contando histórias de tempos passados / histórias da baleia que uma vez virou a canoa... / de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros... // O Mar! / dentro de nós todos/ (...) no desejo de viagem que ficou em sonhos de muita gente! // Este convite que de toda a hora/ que o Mar nos faz para a evasão! / Este desespero de querer partir / e ter que ficar! “ In: Ambiente, 1941.
E porque este poema relembra um episódio decorrido, provocado sobretudo, pelos últimos versos: “Este desespero de querer partir / e ter que ficar,” abria agora um parêntesis para registar que na década de 60 do séc. XX, desencadeou-se uma contenda, suscitada pelo polémico estudo «Consciencialização na Literatura caboverdiana» ( Lisboa, edição da Casa dos Estudantes do do Império, 1963) da autoria do também poeta Onésimo Silveira.  Polémica hoje felizmente ultrapassada e com efeitos – a posteriori – algo complacentes da  parte de muitos críticos. Visava o trabalho de Silveira, apoucar e/ou denegrir sobretudo, os poetas Jorge Barbosa, Baltazar Lopes da Silva /Osvaldo Alcântara e Manuel Lopes, apodando-os de “evasionistas” como se, a poesia dita evasionista não se ligasse estreitamente à condição de ilhéu ou não fosse também evasionista, a poesia muito específica do ilhéu, numa quase relação causa/efeito.
Com efeito, e poupando pormenores, sem lugar neste texto, acrescente-se que O. Silveira, ao depreciar como “evasionista,” o grande texto poético em que assomasse o desejo de terra-longe, reflectido no “desejo de querer partir e ter de ficar,” quis ou, pretendeu arredar da literatura cabo-verdiana, a condição de ilhéu, enquanto elemento estruturante da sua poesia.  Fecho aqui o parêntesis.
Ainda um nome reputado da cultura cabo-verdiana, Henrique Teixeira de Sousa (ilha do Fogo, 1919, Oeiras, Portugal, 2006) no seu ensaio «Cabo Verde e sua gente» Imprensa Nacional de Cabo Verde, 1958, situou o aparecimento da forma mais sublimada da nossa música, a morna – a tal que a voz de Cesária Évora, muitos anos mais tarde, havia de dar a conhecer ao mundo – como tendo tido por berço a ilha Brava, no que não esteve desacompanhado, e a qual ilha, nas palavras do próprio Teixeira de Sousa: “ (...) é a terra em que os homens casam com o mar, como no poema de Pierre Loti, a dulcíssima estância da saudade, mercê da vida aventureira e trágica do seu povo, a morna fixou os olhos no mar e no espaço azul, e adquiriu essa linha sentimental, essa doçura harmoniosa que caracteriza as canções bravenses. Não foi por conseguinte infundamentadamente que situei a morna no período primário da emigração para as Américas.”  O exemplo bravense de que nos fala Teixeira de Sousa pode ser alargada às outras ilhas - sem a adjectivação elogiosa e específica à Brava dirigida – pois sugere que a linha sentimental e nostálgica que a morna transporta, conflitua e bi-parte, na sua composição (letra e música) a condição de ilhéu, espartilhada numa permanente tensão, entre a terra-mãe pequena e pobre e a “nostalgia dos países distantes” a terra-longe, o mundo largo, mais propício a aspiração de uma  vida melhor. Logo, Teixeira de Sousa ancorou parcialmente, a génese e o surgimento desta expressão musical, na condição insular cabo-verdiana, isto é no binómio: “querer partir e ter de ficar” aliada ao “querer ficar e ter de partir.”
 As outras expressões de arte em que a “cabo-verdianidade dos traços” se distinguem,  a pintura é sem dúvida a mais figurativa e daí observarmos nas telas e nos lápis de Jaime Figueiredo, Pedro Gregório, Abílio Duarte, Manuel Lopes e Victor Melo - são aqui exemplos tomados ao acaso, de entre os mais antigos - representações pictóricas da condição de ilhéu.
E agora, com a boa intenção de finalizar o texto, que longo já vai, permitam-me que entre, ainda que de forma breve, no universo dito comparativo que felizmente existe para se tratarem estas matérias. Comparando o caso de Cabo Verde a outros espaços ilhéus, referirei o caso dos Açores, que tem sido  bem estudado, por nomes já consagrados  e de entre os quais, pela boa pena do conhecido cronista, filosófo, pensador e especialista nesta matéria, Professor Onésimo Almeida. Os seus diferentes ensaios colocam este tópico de forma autónoma - ou, conexamente distintos -  dos conceitos de “insularidade” e de “identidade.” A obra de Onésimo Almeida vem fazendo uma desmontagem crítica  de muitos juízos feitos e tidos por certos neste campo, por muitos de nós e, como consequência, tirou-nos com a sua reelaboração, algum “sossego pensante.” Para além disso, Onésimo Almeida trouxe um inestimável contributo conceptual e dinamicamente evolutivo sobre a condição de ilhéu, a insularidade e a identidade, fundamentado em asserções e em parâmetros outros, dentro da mundividência filosófca/analítica do assunto e mais afins  com o mundo actual, contrariando o quase tudo que - tido por adquirido – havia assentado arraiais em análises várias.
No seu ensaio «Em Busca de Clarificação do Conceito de Identidade Cultural- O caso açoriano como cobaia» o autor cita Eduardo Lourenço, grande pensador português contemporâneo, a propósito da questão da identidade dos Açores  que se “transformou em autonomismo consciente e voluntário” o que, mutatis mutandis  se pode aplicar ao caso de Cabo Verde, pois que tinhamos de há, pelo menos um século antes da independência, aquilo que o texto de Onésimo Almeida definiu para o  caso açoriano: “ Uma consciência bastante elevada de uma personalidade singular no espaço mais geral da cultura portuguesa; e não se desenvolveu por oposição a esta, mas desenvolveu-se dentro dela.”  Com as muitas diferenças entre os dois casos, Cabo Verde possuía também essa “consciência singular” que se desenvolveu não por oposição também, mas na confluência do conflito gerado pelos dois grupos (europeu e africano) que povoaram o território, na procura de um equilíbrio.   Confirmando que já eramos nação autonomizada, século antes de sermos país.
Mas o interessante é que a identidade colectiva cabo-verdiana, construída ao longo do tempo, no isolamento cósmico do meio do oceano, que acentuou drasticamente a nossa condição de ilhéu; descendendo de dois grandes grupos humanos, o africano e o europeu que aqui aportaram, em terra desabitada; muitos ou, quase todos, forçados a isso, e todos certamente com saudades da terra, do continente distantes e do lar neles deixados. Terá forjado aquilo que o ensaísta Gabriel Mariano (ilha de S. Nicolau 1928. Sintra Portugal, 2002) afirmou sobre a identidade do cabo-verdiano: “Nós somos as nossas raízes, não temos que as procurar.”  Ainda o facto de sermos ilhas um pouco abandonadas, e a nós próprios entregues, somado e bem acrescido ao facto, de os seus habitantes enfrentarem uma luta duríssima contra um imbatível adversário, uma natureza inóspita, uma terra pouco produtiva, terrivelmente seca, de chuvas raras, e/ou de negaças das mesmas, que ora vêm, ora não vêm. A quase nula riqueza produzida. As estiagens e as secas constantes, acompanhadas outrora de crises de fome e do seu cortejo de malefícios e de tragédias humanas e sociais; porém, e apesar de todos estes constrangimentos altamente limitativos e negativos, para uma construção normal de qualquer comunidade humana, e da sua  identidade cultural; a  construção delas, no nosso caso, não se caracterizou de uma maneira geral, «por oposição ou por ressentimento ao grupo maior». Salvo episódios acontecidos em algumas e poucas circunstâncias de revoltas e de ressentimentos historicamente justificados pelas crises de fome.
Se é certo que os episódios havidos e dirigidos foram ao grupo dominador de que também proviemos; também não é menos certo que, no mais e no resto, para além de uma resignação muito cristã, interiorizámos desde os alvores como nação, uma “práxis” social e cultural em relação a nós próprios e em relação a outrem, sob formas não extremadas e não exacerbadas que a condição de ilhéu potenciou..


Artigo publicado no volume: «A Condição de Ilhéu» Concepção e Coordenação de :Roberto Carneiro, Onésimo Teotónio Almeida e Artur Teodoro de Matos. Centro de Estudos e Documentos 22 Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, 2017.