domingo, 19 de fevereiro de 2017
Eis um texto de que comungo e que tomo a liberdade de partilhá-lo - com a devida vénia ao seu autor aqui mencionado e ao Jornal «Público» - com o amigo leitor do «Coral-Vermelho». Trata-se de um escrito na linha de interrogações, sobre aqueles que teimam em estragar e adulterar, com expressões insuficientemente "meta-semantizadas" e com estrangeirismos forçados, a nossa bela e rica Língua.



António Bagão Félix, in: Jornal «Público» de 17/02/2017

Hoje, escrevo por defeito (e à condição)

Com ou sem acordo ortográfico, ouvem-se e lêem-se, com frequência, expressões de modismos mais ou menos tecnocráticos e de anglicismos forçados.
Sobretudo no futebol, propaga-se em toda a linha o paupérrimo “à condição”. É
assim que se diz e escreve em quase todo o lado, quando, por exemplo, uma equipa fica “líder à condição”. Os entendidos da bola teimam em falar de classificações antes de concluída uma qualquer jornada, usando aquela deficiente expressão. Confesso que tenho saudades do tempo em que os jogos se realizavam nas tardes de domingo, todos à mesma hora. Pelo menos, nessa altura, não havia classificações “à condição”. Neste contexto, bem se poderá concluir que esta expressão “à condição” é culpa da televisão, que obrigou a “jornadas dominicais” estendidas por quatro dias! A expressão “à condição” exige dizer-se qual é ela. Porque condições há muitas. Se eu disser simplesmente “estou à condição”, entender-se-á que a minha frase, além de um indigente modo de expressão (deveria dizer “sob condição”), está incompleta (qual é, afinal, a condição?). Já se viu o que seria uma pessoa “à condição” no tribunal? E será que um arguido julgado à revelia o é “à condição”? No caso da estafada frase em futebolês “primeiro classificado à condição”, melhor seria dizer “líder provisório”. Aliás, “à condição” é como estão todas as equipas antes de jogarem: a condição de jogarem mesmo. Na primeira jornada até todos os competidores serão campeões “à condição”. Uma outra expressão, agora muito em voga, é a tradução literal de “by default” (“por defeito”). Muito usada na linguagem informática, expandiu-se endemicamente no uso e no abuso. Com a ridícula consequência de se poderem confundir três leituras possíveis: a que resulta directamente da expressão inglesa (que, verdadeiramente, quer dizer “por omissão”, “por predefinição”, “por norma”); a que está associada a verdadeiro significado da palavra “defeito enquanto imperfeição ou deformidade;
ou ainda a expressão quantitativa de insuficiência que se opõe a “por excesso” (por exemplo, “O PIB foi avaliado por defeito”).Com o avanço, de um modo de todo deslocado, da asserção “por defeito” com o significado da expressão inglesa, não faltará muito tempo para se dizer, com aparente naturalidade, por exemplo, “fez mal (ou bem), por defeito”, “sem carro, foi a pé, por defeito”, “como era o único candidato à liderança do partido, ganhou por defeito”, “era palhaço, por defeito”, “passou a ser ateu, por defeito”. Enfim, de defeito em defeito, até onde chegará o dito defeito? Finalmente, entre os muitos anglicismos adoptados, há um que medra em escala logarítmica: o que advém do inglês “to realize”, que quer dizer notar ou aperceber-se. Por simpatia, o verbo “realizar” tem sido replicado no nosso idioma com o mesmo significado do verbo inglês. Ora, “realizar” significa, em bom português, efectuar, conseguir, fazer, concretizar, pôr em prática, dirigir um filme, produzir. Mas há pessoas, sobretudo nas camadas ditas mais eruditas ou socialmente mais presentes, que, sistematicamente, usam o verbo no sentido que a palavra tem em inglês (“ele
só ontem realizou que os impostos subiram”).
Como diria Júlio Verne, “tudo o que um homem é capaz de imaginar, outro é capaz de realizar”.
Juntando estas breves notas, termino com uma charada de mau português: “Nos
próximos dias, escreverei, à condição, sobre um tema que, por defeito, possa incluir neste blogue e que os leitores possam realizar.
Fiz-me entender?


António Bagão Félix -«Blogues. publico.pt»

Lembrando Maria Helena Spencer...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Permitam-me o desabafo: esta é uma cidade (Praia) que por vezes, me faz pensar que não merece os ilustres filhos que teve pois, deles se esquece completamente, passando ao lado da sua história. Não os relembra, não  os  homenageia, sequer uma simples placa numa avenida, numa rua, ou num beco.
 Vem isto a propósito do esquecimento, creio que por infeliz ignorância, (no sentido vernáculo do termo) ou por puro desleixo atávico, da única Cronista  que até hoje - até ao momento em que escrevo estas linhas - amou com desvelo e escreveu com igual cuidado sobre a sua cidade, a Praia, que todos dizemos mal-amada.
Perdoem-me esta forma, algo desabrida, de expressar a minha indignação.
Pois bem, trata-se de Maria Helena Spencer, (1911-2006) praiense, Jornalista, é ela merecedora desse tributo dos munícipes e dos Edis praienses, estes últimos, tão distribuidores  de nomes (alguns de lógica duvidosa, em relação à cidade) pelas artérias da cidade, mas nunca se lembraram desta mulher/Repórter, que aqui nasceu, brincou, viveu, amou,  trabalhou e muito escreveu - com real afecto - sobre a Praia e os seus problemas sociais.
Nas linhas que se seguem, vai um registo apenas, do muito que Maria Helena Spencer escreveu sobre a cidade da Praia nos idos da década de 50 do século XX e que curiosamente, chega até aos nossos dias com muita actualidade.




Maria Helena Spencer
- A Cronista e a Cidade –


“ Confesso que a ideia de ir ao campo não me sorria. De mim se poderia dizer como da abelha que «Oú je m´ attache je meurs». Nasci na cidade – esta nossa pequenina cidade tão querida de uns e tão desdenhada por outros – e só aqui me sinto bem.”
In: O que os meus olhos viram – As obras do B.T. E. T. H. em S. Francisco pág. 23 Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação nº 111 de Dezembro de 1958.

 É exactamente através das suas próprias palavras e estas extraídas de uma crónica viva e engraçada em que ela descreve e relata um dia, no caso, meio-dia, fora da cidade para uma reportagem no campo. (à Jornalista tinha-lhe sido cometida a tarefa de ir ver as obras e entrevistar o Engenheiro da B.T.E. T. H. (Brigada Técnica de Estudos e Trabalhos Hidráulicos) em S. Francisco sobre o progresso das mesmas obras. E a nossa articulista começa assim a sua reportagem, com o problema de sair, de deixar a cidade...a da Praia… Retomando o início, dizia eu que, é através das palavras dela que gostaria de vos apresentar ou (re) apresentar, esta senhora, que como poucos soube olhar e amar a sua cidade, a Cidade da Praia. Maria Helena Spencer, … completo Maria Helena Salazar Spencer Santos, nasceu nesta cidade a 3 de Abril de 1911.  No meu entender, repito, ela percebeu e amou como poucos, e com olhar crítico, a sua Praia, a dos anos 50 do século XX.
Nunca é de mais, pelo contrário, é sempre uma boa ocasião, trazer à “ribalta” como sói dizer-se, esta personalidade, Maria Helena Spencer, que não precisa, em abono da verdade, de favor algum das luzes das nossas Letras, pois ela é tributária delas e astro de luz própria. Para além de deliciosa contista, perfeccionista sem pose artificiosa em língua portuguesa. Bem pelo contrário, tudo o que esta excelente cronista da cidade capital escreveu, é de boa e de agradável leitura.  Foi senhora de uma prosa deliciosa, colaboradora por uma boa dezena de anos no único periódico regular e mensal publicado na Imprensa Nacional desta cidade, de 1949 a 1963, o já célebre: «Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação», legou-nos, igualmente e primorosamente escritas, páginas de reportagem e de bom jornalismo, especialmente sobre a Praia, mas também sobre assuntos diversos e candentes na época, para a sua terra e a sua gente. Não vá sem se dizer que, muitas das páginas escritas por Maria Helena Spencer, conservam, em termos de matéria e da forma como a expressou, uma actualidade que merece ser (re) entendida e (re)interpretada para a Praia dos nossos dias. 
Eis o perfil de MHS, nas palavras de José Maria Costa (contemporâneo praiense da nossa Jornalista) foi quem, à época e num Artigo intitulado: “Melhor Padrão de Vida – Resposta a um comentário de M. H. Spencer, inserto no “Cabo Verde” nº. 62, de Novembro de 1954, que o havia questionado a propósito de um ponto de vista exposto num artigo publicado no número anterior do mesmo Boletim. José Maria Costa na réplica, a definiu a determinada altura, e passo a  transcrever: “...conheço a D. Maria Helena. Sei que foi educada na metrópole num dos melhores colégios de então. Sei que aproveitou, e muito, com essa educação. No colégio era considerada aluna distinta. Teve como condiscípulas senhoras que hoje ocupam lugares de destaque no nosso meio social metropolitano.”
“D. Maria Helena, – continua a apreciação do articulista – é uma figura intelectual que honra as letras de Cabo Verde. Tem a infelicidade de aqui viver, onde não há lugar para tirar proveito do seu real mérito e talento.” Fim  de transcrição.
Com efeito, as palavras de José Maria da Costa, aqui citadas, ajudam a perceber não só o percurso escolar, académico da nossa grande Repórter praiense, como também, me parecem ilustrativas, e parcialmente explicativas, refiro-me à interessante apreciação de quem a rebatia num artigo, da estética e da profundidade da escrita da generalidade dos textos de Maria Helena Spencer.
Mesmo a contista que é Maria Helena Spencer, vamos encontrar igualmente como cenário, como habitat, das suas personagens, da acção e do enredo da maior parte dos contos: a cidade da Praia.

Posto isto, é chegada a altura de entrar na “máquina do tempo” e…recuarmos aos anos 50 do século passado, para assim, reencontrarmos a Praia de Ontem, a cidade de MHS. 

 Convido-o pois, caro Leitor, a deixar-se guiar, isto é, a ter o prazer de ter por Guia, Maria Helena Spencer numa pequena digressão, reveladora de aspectos culturais e sobretudo da geografia humana, social, antropológica, da Praia, cidade dos anos cinquenta.
Comecemos pelo cais da cidade.
 “O que eu vi numa noite, no cais. Assim se intitula a crónica escrita em Novembro de 1953 no Cabo Verde. n.º 50 pág. 25 e 26:
“O mar estava agitado e a noite tão escura que dificilmente as luzes da ponte conseguiam perfurá-la. Sombras negras, mal definidas moviam-se como imagens de um pesadelo e, por sobre tudo, o braço longo do guindaste, dum lado para outro, na faina da descarga, ia enchendo tudo de sacos de cimento. Às vezes, lá aparecia um rasgado e numa nuvem de pó vinha sufocar-nos.
Poucas coisas me desagradam tanto como a proximidade do mar, o barulho dos cais, com os seus gritos a tentarem sobrepor-se ao ruído das ondas, o cheiro a maresia, as vagonetas de carga uivando sobre os carris de ferro – tudo isto me produz uma fatigante sensação de desconforto e medo, como se toda aquela gente azafamada acorresse a um desastre. No entanto, visto assim à noite, tinha uma espécie de beleza que eu não podia deixar de reconhecer-lhe: a ponte alongando-se pelo mar como uma estrada escura, ladeada de globos brancos, luminosos, e ao largo, mas parecendo, no escuro, muito mais perto, o Ana Mafalda, cheio de luzinhas trémulas, a reflectirem-se na água como fogos em noite de Santo António; depois, surgindo no pequeno espaço iluminado, os barcos à vela, silenciosos, discretos e de vez em quando, as vedetas a motor, rápidas, vaidosas nas suas manobras espectaculares, um marinheiro de pé, segurando o croque, em atitude hierática…
Durante mais de uma hora estive debruçada, olhando o movimento. Depois, senti-me cansada, a cabeça à roda, e tive de procurar um lugar para descansar.
Lá em cima na praça Alexandre de Albuquerque, há muito que se tinham apagado os últimos acordes da “Portuguesa” marcando o fim do concerto e dando a cada um o sinal de recolher. Não tardariam a bater as onze e Deus sabe quanto tempo eu teria de esperar. Dizia-se que o barco só saía de madrugada e os meus amigos haviam de querer aproveitar os últimos momentos que iam separá-los de uma pessoa querida.
O guarda, à entrada da ponte, tinha-me oferecido uma cadeira, mas pareceu-me tão despropositado ver-me ali sentada no meio do movimento geral que, apesar de não me poder ter de pé, recusei.
Depois, procurei um cantinho, na areia debaixo da ponte e, como pude, lá me sentei no escuro, sobre um montão de pedras e sucata. Daquele lugar enquanto descansava, podia espreitar a chegada dos meus companheiros.
A pouco e pouco, os olhos habituaram-se-me à escuridão e comecei a descobrir, ali perto, uma meia dúzia de vultos quietos, como se estivessem dormindo.
- Quem está aí? – Perguntei.
Devagarinho, em segredo, pedem-me silêncio.
Eram garotos, deitados uns sobre os outros, ao acaso. Penso que vão passar a noite ao relento e talvez à chuva que não parece tardar e, condoída, pergunto se dormem ali.
Uma vozinha de criança responde:
- Não. Estamos só «velando a tartaruga»; depois vamos para a casa.
- Que é isso de «velar a tartaruga»?
Sempre em surdina, explicam-me que têm de ficar muito calados à espera, até que ela venha, o que se conhece pelo mexer da palha que lhe puseram no caminho para avisar. Depois, caiem-lhe todos em cima, de repente, viram-na de costas e…pronto! Amanhã há bifes de tartaruga no mercado.
Devagarinho fazendo menos possível de barulho, vou-me embora outra vez para não cometer alguma imprudência que possa prejudicar o trabalho dos miúdos. E volto para o meu poiso, lá adiante, perto da escada.
Talvez tenha passado meia hora, ou mais quando um deslizar quase silencioso chamou a minha atenção: para lá de onde eu tinha estado, havia barcos arrastados na areia; um deles – um botezinho branco – estava-se movendo cuidadosamente, em direcção ao mar de cada lado, um vulto tão pequeno que mal lhe ultrapassava a borda. Olhei com curiosidade. Rapidamente chegou à água e, então, os dois vultos retrocederam a correr, voltando logo a seguir com um par de remos. Meteram-se-lhe dentro e o bote a balouçar perigosamente, foi-se afastando como podia.
Tive vontade de esfregar para me convencer de que não estava a sonhar, tão irreal me parecia o que estava vendo.
A meu lado, debruçado, um homem – talvez um estivador desocupado – fumava socegadamente, olhando também.
- Que é aquilo? – Perguntei – que vão aqueles garotos fazer com o barco?
Pensei que o estavam roubando e que se devia fazer alguma coisa. Mas o homem, fleugmático, respondeu-me:
- Vão roubar cimento nas lanchas.
- E o guarda? Por acaso deixam a carga abandonada?
-Não, mas as lanchas são grandes e o guarda, em geral, senta-se à popa. Então eles, aproximam-se sem ruído pela proa, atracam e tiram um ou dois sacos. Se o não conseguem dão uma facada num e aparam o que cai. Depois, afastam-se com as mesmas cautelas…
Olho o barquinho que segue e vejo-o balouçar cada vez mais inquietadoramente sobre a vaga grossa.
- Mas eles não têm família? Alguém que lhes nota a falta em casa? Isto é um perigo: pode haver desastre…
- Têm família, sim senhora, mas sabem onde eles estão e não fazem caso. Há mães que se gabam com orgulho que o seu filho pequeno “é o homem da casa”. Amanhã, cada um leva o dinheiro que lhe couber da venda do cimento. É sempre assim nos dias de descarga, principalmente quando calha ser à noite.
Uma madrugada, no tempo da fome, apareceu um pequeno cadáver a boiar, por aí, debaixo do cais. Tinham feito uma tentativa, mas não foram felizes: em risco de serem apanhados, afastaram-se bruscamente. Um caiu ao mar e, como não sabia nadar…
O homem continuou a fumar calmamente, como se apenas me estivesse contando uma história vulgar…Eu não sei se a minha oração foi pecado; mas pedi a Deus de todo o coração que protegesse os pequeninos ladrões que naquele momento arriscavam a vida, com a dureza de homens feitos, para que no dia seguinte, houvesse em casa pão para todos – aqueles pobres garotos que, sem o saberem, pisavam um vertiginoso plano inclinado…

*
*             *

Mais uma lingada sobre o cais. Um dos sacos caiu aberto, espalhando uma nuvem de poeira sufocante…
Agora sei porque há tantos sacos rasgados…só não compreendo onde certas mães têm a consciência e o coração.”
In: O que os meus olhos viram. Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação nº 50, pág. 25 e 26.  
  
Do cais subiremos à cidade, despromovido hoje, como alguém já disse com graça, a «plateau». E sempre com a D. Maria Helena Spencer iremos até ao Hospital:
“Passei cerca de um mês num quarto particular do Hospital da Praia.
Não pude deixar de admirar o trabalho e persistência que representa o estado em que actualmente se encontra: instalações decentes quer quanto ao edifício em si quer quanto a mobiliário ou mesmo o asseio e conforto, pois não fica atrás dos mais higiénicos da Metrópole. Não há luxo: apenas o indispensável, os quartos particulares pouco mais tendo que as enfermarias onde são tratados os indigentes, mas tudo branquinho e irrepreensivelmente limpo. Pessoal bem treinado, não se notando má vontade nem indício de cansaço, mesmo quando se lhe exige o esforço de uma noite inteira.
No entanto, os meus olhos curiosos olharam… o que viram encheu-os de um pavor que ficará ainda por muito tempo, talvez para sempre.

Eu ia naquela manhã atravessando a longa enfermaria, no alheamento em que me refugio sempre que uma dor grande se abate sobre mim, quando percebi que alguém me chamava:
- Você, que dizem que escreve, olhe para ali e diga alguma coisa sobre as crianças de Cabo Verde… 
Encarei um rosto saudável cuja expressão se perdia por detrás de uns óculos exageradamente escuros; mas ao meu ouvido apurado não escapou a vaga nota desdenhosa: «você, que dizem que escreve…»
De facto, eu devia ter então aspecto de tudo menos de quem escreve: a roupa amarrotada da noite sem dormir, os olhos fundos e desvairados e aquele todo idiota que Deus me deu e nunca consegui corrigir…
- «Você que dizem que escreve, olhe para ali…
Olhei à toa, sem perceber: mas logo, solícita a enfermeira, género capa da «Life» - cabelos maravilhosos e olhos negros, cabo-verdianíssimos embora ela diga que não: cuidada desde os pés bem calçados à maquillage perfeita – veio em meu auxílio indicando-me o que o médico me queria mostrar. E eu vi a coisa mais pavorosa e angustiante com que os meus olhos já depararam: um pequenino ser, de pouco mais de um palmo, cabeça enorme num corpo reduzido, esquelético, enrugado, mais parecendo um velho, cheio de feridas – horrível!
Desviei-me instintivamente e quase gritei ao homem: «O que é, o que é aquilo?»
- Fome e gastro-enterite, respondeu com calma. – A mãe adoeceu do peito e, como alimento passou a dar-lhe café com leite…
Odiei aquele rosto sem expressão que continuava rosado e saudável perto de semelhante horror; odiei aquele médico que conseguia lutar com a morte desportivamente, sem emoção, parecendo-nos a cada passo que um marcador iria como nos campos de foot-ball fixar-lhe as derrotas ou vitórias.
E disse-lhe um «não» categórico. Não, não queria escrever porque não tinha a insensibilidade dele e a dor dos outros magoa-me quase tanto como se fosse minha. Soube depois que me tinha enganado e que o pobre senhor não tinha culpa do seu ar sorridente de estudante em férias: adora as crianças e os pobres e, silenciosamente, sem alardes, vai-lhes fazendo todo o bem que pode…
Passaram-se os dias e as noites e, pouco a pouco, fui aprendendo a dominar os nervos, conseguindo aproximar-me de cada cama, olhar, perguntar…
Uma rapariga nova, quase uma criança, despertou a minha atenção: tinha ali o filhinho doente, da mesma doença horrível de quase todos: gastro-enterite. Passava o tempo olhando para ele com os olhos tristes, de uma tristeza resignada. O pequenito, inchado, disforme, mal se movia.
Uma vez vi-lhe na mão uma fatia de bolo grosseiro, desses que se vendem pelas ruas… Ante o meu pasmo, disse-me a mãe que não fazia mal, que era só para entreter…
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Compreendi então que o médico tinha razão, que é preciso dizer alguma coisa sobre a maneira como são criadas essas pobres crianças do povo, sobre a ignorância das mães; compreendi que é preciso trabalhar – cada um no que puder e souber – para salvar esses inocentes que a superstição, o desconhecimento dos mais elementares cuidados aliados à extrema pobreza dos pais (muitas vezes apenas da mãe que o pai abandona) conduzem à morte num sofrimento horrível que, em muitos casos, se poderia ter evitado.
As crianças doentes só são levadas à consulta quando já quase não há remédio e, mesmo assim, não se seguem em absoluto as prescrições médicas; preferem-se as mezinhas mais incríveis, na sua maioria à base da «babosa» e outras coisas pióres; a dieta é considerada idiotice e citam-se exemplos de fulana e sicrana que não fizeram caso das tolices do médico e curou  o seu menino em casa com remédio da terra…
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Repito o que disse em tempos com desagrado geral: É preciso civilizar este povo. – E acrescento: Menos conhecimentos literários e mais noções das coisas indispensáveis à vida. Que a educação das raparigas se faça tendo em atenção o seu futuro lugar de mães de família; que as escolas dêem, obrigatoriamente, noções de puericultura e higiene como já se faz em muitas da metrópole; que médicos façam palestras pela rádio, não no género erudito e difícil que só interessaria a uma minoria para quem, de resto, seriam desnecessárias, mas em linguagem simples, clara, acessível a toda a gente; que haja postos de puericultura espalhados por toda a parte e brigadas que vão pelo interior ensinando e tratando.
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E que se castiguem severamente os descuidos, o desinteresse, o desrespeito pela vida da criança.
Que se estabeleçam em Cabo Verde – e se cumpram – leis de protecção à infância para que deixe de haver crianças praticamente abandonadas e se exijam responsabilidades a esses pais que abandonam as mães mal surja a hipótese de um filho.
Que não se esconda à mocidade o mal nem o sofrimento, antes se lho mostre em toda a crueza para que aprenda a defender-se. Vi paralisada numa cama uma velha que em tempos fora bailadeira célebre de batuque e… ainda mais célebre consumidora de bebidas; …
Trago ainda os nervos doentes e os olhos pasmados de horror, mas, se as minhas palavras despertarem o interesse de alguém, não maldigo o sofrimento daqueles dias passados no hospital da Praia.”
O que os meus olhos viram…(«Cabo Verde» Dez. 1956 – Nº 87 – Ano VII)
Torna-se interessante verificar que há um método e uma arrumação muito visíveis nos textos de M.H.S., dependendo da natureza do assunto e da forma de o abordar, ora a autora o enquadra, sob a epígrafe: “O que os meus olhos viram” ora, submete-o ao grande título: “Contrasensos” ou ainda, coloca o assunto nas “Folhas de um Diário”. Sob estes três grandes «chapéus» ela abrigou os textos fundamentais, sobre a Praia e os testemunhos da sua colaboração no Cabo Verde.                       
   Outra marca da escrita desta Jornalista, embora eu vá classificá-la utilizando um lugar-comum, e como tal, já gasto pela usura… mas apetece-me dizer, no caso de Maria Helena Spencer, que esta senhora tem o sentido ético da escrita jornalística, da crónica, da reportagem. Faço-me entender, M. H. S. acrescenta quase sempre, no seu trabalho, qualquer que seja o assunto tratado, uma valência que eu chamaria de pedagógica. (...talvez por ela ter sido professora primária e foi-o na ilha Brava e na ilha do Fogo). Há sempre, ou quase sempre, em última instância textual a premência da transmissão de valores sociais/gregários. Para dizer que, no meu entender, ela fez, se calhar «avant la lettre» aquilo a que hoje se chama de jornalismo para cidadania.
Vamos reler a propósito, excertos de um artigo de opinião: “Ensinemos o Povo” que ela insere no nº. 49 do Cabo Verde de Outubro de 1953.
 “ Quando todos os países civilizados convencidos de que só com homens conscientes é possível ter nações fortes…nós, em Cabo Verde, ignoramos o povo – esse animal de carga que trabalha para nós – e deixamo-lo desconhecer os mais elementares princípios da vida…
…vive ainda em plena superstição, ignorante da higiene, dos cuidados necessários às crianças, da moral, das regras do trabalho, de tudo, enfim, que a maioria do camponês boçal de outras terras  tomou já como hábito normal.
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E porquê tudo isto?
Porque o povo é insusceptível de ser civilizado?
Ouso afirmar que não: Quando o «badiu», ou o natural de qualquer das ilhas do Arquipélago, vai para a Metrópole, para a América, ou mesmo para Dakar, embora não se torne intelectual, regressa transformado num homem que pensa e reage como qualquer de nós e traz hábitos decentes que quase sempre conserva pela vida fora.
Porquê então?
Apenas por isto: Porque nós, os que pensamos e temos de algum modo a responsabilidade no que se passa à nossa volta, discutimos… e preocupamo-nos demais com os grandes problemas mundiais que se debatem lá longe; mas esquecemos, lamentavelmente, os nossos, estes pequenos problemas talvez mesquinhos para a nossa intelectualidade elevada…
Se procurássemos educá-lo, ensinando-lhe tudo o que ignora e deveria saber…
Estas crianças que se criam pelas ruas, de caras lambuzadas e corpos que raramente vêem água, perturbando o trânsito e aprendendo palavrões, se os pais soubessem como deviam cuidá-las, seriam amanhã adultos mais fortes, homens e mulheres conscientes, verdadeiros cidadãos a quem ninguém ousaria chamar «badius».
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Os operários que trabalham preguiçosamente, sem um fim, apenas como quem cumpre uma pena injusta, todos esses que são desgraçados porque ignoram tudo que pode dar o conforto material e moral, como seriam outros, se houvesse quem lho ensinasse!
Não se diga que nos faltam condições. Não: temos tudo quanto é necessário à divulgação  - rádio, cinema, e4scolas, igrejas… Apenas, deixamos que nos tomasse uma resignação amarga, o «não te rales» de quem pensa que não vale a pena tentar endireitar o mundo.
Ouve rádio por toda a parte; a música caboverdeana corre o mundo: aproveitemos essa possibilidade para falar ao povo. Que os médicos, professores, padres, todos aqueles que podem ensinar alguma coisa de útil, sejam chamados a dizê-lo, não em frases cuidadas… para aqueles que não precisam; mas em palavras tão simples que possam ser compreendidas por todos. Que ninguém se recuse nem o faça como «frete»; mas com interesse e agrado, de forma a prender a atenção rebelde dos que não sabem… que precisam saber.
Ensinemos o povo a amar os bons hábitos, ensinemo-lo a cuidar de si, da sua casa, a criar a uma família digna e unida e, sobre tudo, demos-lhe o gosto de se instruir para que ele mesmo busque os conhecimentos que lhe faltam.
Procuremos levantar Cabo Verde; não esperar tudo dos «outros»; é a nós que compete trabalhar pelo nosso próprio bem.”
In “ENSINEMOS O POVO… («Cabo Verde» B.P.I nº 49 – Outubro de 1953)
    
Afinal, o Bairro, situado na Achadinha que já foi denominado “Craveiro Lopes” mais tarde, após a independência de “Kuame Nkrumah” actualmente e, de novo, chamado Bairro “Craveiro Lopes” ou simplesmente: “Bairro,” fora inicialmente baptizado como Bairro de Santa Filomena. Pelo menos assim nos dá conta a crónica/reportagem de M. H. S. escrita em 1958. É precisamente ao então Bairro de Santa Filomena que nos dirigimos com a D. Maria Helena para as entrevistas com os moradores do novo bairro recém inaugurado, e já nas suas novas casas.
“Pareceu-me que seria curioso saber como reagiam os habitantes do «Bairro de Santa Filomena» ao conforto que as suas novas habitações lhes proporcionam.
Assim, uma tarde destas, já quando o sol se escondia, lá fui eu, a caminho da Achadinha, ver, na hora a que, mais ou menos, deviam estar todos reunidos – os homens tendo já regressado do trabalho – como era a vida por lá.
E, francamente, foi uma surpresa. Mesmo nas principais ruas da Praia, sinto-me imensamente chocada com a falta de hábitos de cidade que este povo tem: Gritam, discutem de porta para a porta, sentam-se na rua a catar os garotos e estes, quando calha, jogam o foot-ball de encontro à baliza das nossas portas ou… das nossas vidraças…
Era isto que eu esperava encontrar no «Bairro de Santa Filomena». E, porque não? Se o povo é o mesmo…
Pois bem, enganei-me.
Logo à chegada encontrei – é certo – um grupo de garotos jogando foot-ball, enquanto um dava «para o ar» (absolutamente para o ar) o respectivo relato; mas faziam-no razoavelmente, fora da área das habitações. Mais além, duas raparigas sentadas à porta… Não, não havia nada de censurável: apenas tomavam um pouco de fresco, cada uma com seu menino ao colo, ambas limpas, compostas, sentadas em cadeiras, com o ar senhoril e correcto de quem faz ou recebe visitas.
Mas, a minha curiosidade era principalmente a Praça. Pensei que ia ver os homens reunidos, a contar histórias, como em certos lugares da Brava onde, à noite se juntam os velhos contando tantas maravilhas das suas viagens por esse mundo que um destes lugares tem o nome pitoresco e sugestivo de… «Cutelo das mentiras»!
E também desta vez me enganei: a Praça estava quase deserta, a não ser um pequeno grupo que passava e um vulto sentado lá ao fim num dos banquinhos de cimento.
Dirigi-me para ele. Era um homem de idade, alto, muito forte, com um aspecto respeitável. Disse-me chamar-se António Izidoro Varela, 2º sargento músico, reformado. É casado e tem filhos. Quantos? – Pergunto.
- Sei lá… São tantos!
- Gostaria de saber como passam por aqui: se estão contentes, se as casas preenchem todos os seus desejos?
 Ilumina-se-lhe o rosto num largo sorriso:
Oh! Muito, muito contentes!
- Há alguma coisa que gostaria que fosse diferente?
- Tudo está bem, muito bem assim e, se não digo mais é pelo receio de ser acusado de lisonja.
Peço-lhe que me leve a ver a sua casa. Conduz-me gentilmente ao nº 40 e ali me apresenta a mulher e uma filha. Esta fala-me em português – como o pai, de resto – e tem um aspecto civilizado de quem está acostumado a outro meio.
A casa vê-se asseadíssima, mas noto móveis a mais para o tamanho.
- Estão um pouco apertados, não?
-Sim – responde-me a Sr.ª Varela – quando o meu marido pensou em vir para aqui julguei que não conseguisse fazer caber tudo; mas cá estamos e sinto-me feliz.
Onde moravam antes?
Na Ponta de Água. A casa era nossa e grande, mas esta é bem melhor, embora pequenina.
- Porque não pedem mais outra? Com tanta família…
- Já pedimos; só estamos à espera de vaga.
Penso comigo que, se todos os actuais inquilinos se sentem tão felizes como estes, bem podem esperar…
Despeço-me da família Varela e sigo sem destino certo, um pouco à toa porque, como as casas estão quase todas fechadas, penso que os donos devem estar ausentes.
No entanto, foi anoitecendo e, aqui e ali, diviso o rectângulo luminoso de uma janela.
Dirijo-me à primeira. Lá dentro, dois rapazes lêem  ou escrevem à luz de um candeeiro de petróleo. Falo a um deles – o mais velho e que me parece dono da casa. Mas é o outro - o verdadeiro dono – que responde – um rapagão alto, de expressão infantil. Chama-se Dinis de Pina e é capataz de Brigada de Saúde. Não é casado e mora só.
- Gosta da sua casa?
- Imenso!
- Mais do que da outra em que morava?
- Nem se pergunta?
- Sente falta de alguma coisa?
- Sim, de luz e água…
Depois, num repente:
- Só luz e água, não… Se houvesse um padre… Também o Manuel – da Civil – mais tarde, na Praia, me faz a mesma queixa: «Precisamos muito dum padre. De que serve uma igreja fechada?»

Bato ao acaso numa porta qualquer.
Responde-me uma voz de criança e, pouco depois, vêm abrir.
Percebo então porque estão todas fechadas: cada um neste bairro aprendeu a viver para si a sua própria vida, talvez porque o ambiente lhe agrada e não tem necessidade de nada fora de casa.
Conheço a rapariga que me recebe: É Albertina Monteiro, casada com um servente do correio. Esta talvez não tenha modificado muito os seus hábitos porque é da Brava e ali a vida é diferente; cada mulher vive para a família e a sua vaidade é o asseio da casa e dos filhos.
- Gosta de aqui estar?
- Gosto muito.
- Onde moravam antes?
- No Paiol. Esta casa é mil vezes melhor e pode ter-se limpa. Só tenho pena que não haja água mais perto. As crianças são ainda pequenas para a ir buscar e eu não posso. Por isso, tenho uma despesa mensal de 36$ com o transporte de duas latas diárias. É uma pena.
Mostra-me a casa, bem arranjada, com móveis apropriados a cada divisão e o quartinho do quintal adaptado a casa de jantar e dos filhos… «para que não sujem nada lá dentro».

Falo a seguir com Dulce Tavares. É casada com um empregado do Rádio Clube. Antes, morava na Praia. A casinha também limpa e bem arranjada. Duas crianças pequeninas.
- Gosta de aqui estar?
- A casa é boa, gosto dela, mas…
- Mas?
- Quando anoitece, como agora, olho a cidade onde sempre vivi, cheia de luzes… e não posso deixar de estar triste. Olhe para esta escuridão.
- Porque não procura distrair-se?
- Com quê? Ainda mal conheço as pessoas que moram aqui. Temos um aparelho de rádio que não serve de nada porque não há corrente…
Despeço-me procurando consolar:
- Deixe passar o tempo e V. se adaptará. Terá amigas e, segundo creio pensam em ligar para aqui a luz. É uma questão de tempo. Não se pode fazer tudo de uma vez.
Sinceramente, desejo que esta rapariga nova, decerto habituada a um meio diferente, possa ser feliz como as outras no seu novo ambiente.
Mais duas janelas iluminadas.
Na primeira, Maria Alice, casada com Ambrózio da Repartição de Fazenda, gosta da casa sem restrições. Só tem pena que não haja água.
Antes, morava na Praia.
Na segunda, Maria do Livramento Cardoso, mulher do fiscal de aguardente Ludgero Correia, está tão absorvida no trabalho de passar a ferro umas calças que mal se interessa pela minha presença.
- Gosta sim, gosta muito da casa. Antes morava na Ponta Belém, mas aqui está mais à vontade: Se houvesse água…
Pergunto-lhe então, por curiosidade, que é feito do marido e dos outros homens, que não se vêem.
- Foram a um casamento em Vila Nova.
- Que fazem eles à noite? Juntam-se na Praça?
- Sim, algumas vezes. Contam passagens, conversam…
Deixo a Maria do Livramento entregue à sua tarefa. Sinto-a feliz, vivendo dentro do seu mundo, hostil a tudo que não seja a casa, o marido, os filhos.
E sigo à pressa, guiando-me, aos trambolhões pelas luzes da Praia, pois está escuro e mal se vê o caminho.
Recordo então aqueles trágicos dias em que os gritos parecia nascerem da terra, do ar, de tudo à nossa volta…
- O que foi?
- Arrombou a Assistência!
Fome, morte… tudo passou, esqueceu. Agora há apenas um pequenino bairro de casinhas brancas onde as mulheres são felizes e os homens perdem a sensação de inferioridade que lhes vinha da palhota onde viviam, a meias com animais, crianças sujas e mulheres mal humoradas.”
Como se dá na sua nova casa?  («Cabo Verde» nº 109 – Ano X – Outubro de 1958)


Mas continuando a digressão pela pena da D. Maria Helena, sintamos agora o acordar da cidade, o início e o bulício da Praia escolar com os alunos dirigindo-se em grupo ruidoso e alegre para as respectivas escolas:

Seis e meia da manhã. A cidade, envolta numa névoa ligeira e fria, tem um aspecto curioso: parece que um bando de pombas brancas se abateu sobre as ruas – são as estudantes nas suas batas regulamentares. Passam apressadas – umas a caminho das escolas primárias outras do Liceu.
É a este que eu me dirijo. Quando entro, ainda há pouco movimento: apenas um grupo espera conversando a meio da escada. Subo-a e fico em cima, também à espera, a vê-los chegar.
À medida que aproximam as 7 horas, o movimento é cada vez maior: entram em grupo, falando alto, rindo…
Não posso impedir-me de pensar que ali está todo um mundo que revela já um esboço nítido de tendência que o tempo irá fixando: há rapazes de ar superior (quintanistas?); outros de aspecto sério, quase preocupado, raparigas que dir-se-ia chegarem já cansadas, como se antes já tivesse estado a trabalhar; outras cuidadas nas suas batas impecáveis, já muito femininas. E, no meio de todos, subindo discretamente as escadas em pequenos passos leves e silenciosos, uma rapariga de belas feições pálidas, sem um mínimo de artifício, toda ela correcção e delicadeza… penso que seja qual for o futuro que a vida lhe reserve, ela será sempre uma senhora.”
In: Um inquérito entre os alunos do Liceu («Cabo Verde» nº 125 Ano XI – Março de 1960)

E há também pequenos quadros da cidade, que a cronista, qual aguarelista, nos dá do seu pincel leve, livre e maliciosamente colorido.
Comecemos com um Natal, mais precisamente a noite de Natal, na Praia de 1954   
- “Pode cantar?
- Não, obrigada.
Ignorando a minha recusa, o grupo inicia uma furiosa canção, acompanhada de ferrinhos e palmas.
Começo a tremer, o dedal cai-me da mão e grito sem resultado:
- Parem, por favor.
Normalmente, todo o barulho me incomoda; mas quando estou trabalhando à pressa é muito pior: os nervos desorganizam e chego a ponto de não poder fazer nada.
Como de costume, estava acabando um trabalho para servir naquela própria noite e precisava de todo o sossego para não começar a enervar-me. Mas, qual! A canção continuava, estridente, gritada, a impor-se como um flagelo ou uma obrigação custosa de cumprir.
- Bons anos, boas festas. Nim que ê pouco nha pô na mon.
Dão-me encontrões na porta, pedem, insistem e não há quem os convença de que não só pretendo estar em paz dentro da minha casa como também não tenho a mínima intenção de lhes dar seja o que for.
Enfim, as boas festas e os bons desejos acabam em descompostura recíproca.
E mal tenho tempo de retomar o trabalho interrompido, quando novo grupo se aproxima e nova discussão ameaça perturbar-me outra vez.
Ora, eu pergunto a mim mesma qual a razão de ser deste hábito tão incomodativo. Toda a gente tem o direito de se divertir como melhor lhe aprouver; mas, porque há-de pretender obrigar os outros a acompanharem-no? As «boas festas» são uma tradição gentil adoptada por quase todo o mundo. Mas servir-se da ocasião não só para incomodar quem não deseja ser incomodado, como ainda para pedir de forma agressiva, não se justifica.
Todos nos sentimos obrigados a corresponder, de alguma forma, a uma atenção recebida; mas, se isso nos é imposto… eu, pelo menos, só sei reagir duma forma – recusando.
No dia de ano novo, quando atravessava a rua Sá da Bandeira, um garotinho que não conheço, tipo de «badiu» do interior, de grandes olhos ingénuos e roupinhas lavadas, dirigiu-se a mim e, cortesmente, deu-me as boas festas. Lamentei não ter nada comigo que lhe pudesse dar. Então, curvando-me a beijá-lo disse:« Deus te dê um ano novo muito feliz».
E desejei-lho do coração, como se fosse meu filho, porque soube ser gentil e dar a uma desconhecida o conforto de uma atenção desinteressada.
Porque não hão-de todos ter um pouco de compreensão e deixar aos outros a possibilidade de serem gentis, espontânea, voluntariamente?”
In : Folhas de um diário («Cabo Verde» Ano V – nº 53 – Fevereiro de 1954)

E agora vamos segui-la até ao cinema da Capital e o que ela registou numa noite de Fevereiro, também de 1954:
“Fui ontem ao cinema. O filme era «para maiores de 18 anos»; não havia empurrões à porta nem garotos a pedirem tostões para completar o bilhete.
Tive a sensação de estar numa terra civilizada.
Pensei nas últimas leis criadas para defesa de menores e senti-me feliz: amanhã num futuro que eu talvez não chegue a ver, esta terra será – como Portugal em relação ao Mundo – um caminho tranquilo e digno onde se trabalhe em paz para o bem comum e cada um sinta orgulho de si próprio.” 
in: Folhas de um Diário
 Boletim Cabo Verde nº 53, Ano V, Fevereiro de 1954
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E já agora porque não comungar com ela da alegria farta e pagã como as Cinzas são vividas nesta cidade?  Ou mesmo …discordar dela sobre a sua percepção do Carnaval ou melhor, do Carnaval da Praia de há cinquenta anos?                                                                                                                                                                                                    
“Acabou-se o Carnaval, essa espécie de agonizante que todos os anos se arrasta molemente, sem entusiasmo nem graça, como uma velha tradição de que já nos vamos envergonhando.
Mas acabou-se. Diluiu-se na 4ª feira de cinzas, alegre, ruidosa, empanturrada de cuscus e mel, como uma festa pagã.
Se há muitas que não compreendo, uma das que mais confusão me faz é a psicologia deste povo: diz-se profundamente religioso, cumpre à risca todos os preceitos dos dias santos de guarda, excepto -  claro! – no que se relaciona com qualquer abstinência e… faz da 4ª feira de cinzas a mais escandalosa patuscada do ano. Ouvem-se pilões por toda a parte preparando o «xarém»; o mercado enche-se de cocos, peixe salgado e mel.
Quando há pouco atravessava a Praça Alexandre de Albuquerque cruzei-me com uma rapariguita que trazia, numa das mãos o véu de ir à Igreja e, na outra… um garrafão de mel!”
Logo, ao meio-dia, começa a farta comezaina… muitos ainda com a testa marcada de cinzas… «Memento homo…».
Oh! O latim! Quem vai preocupar-se a compreender-lhe o significado?!
Tolice, velharia fóssil! O que interessa é que é dia de festa: comer, rir, brincar e, depois, estender-se ao Sol, na moleza de quem gozou à farta.
Religião? Paganismo?
O problema é demasiado subtil para mim e, por isso, desisto de o resolver.
 
CONTRASENSOS («Cabo Verde» nº 66 – Ano VI – Março de 1955)
                                                              
Maria Helena Spencer e a saudade da sua Praia quando dela se afasta é qualquer coisa de comovedor! Daria para um outro trabalho, que, como disse o poeta: “se a tanto me permitir o engenho e a arte.” Mas valeria a pena analisá-la, pois é uma saudade profundamente afectiva que se encontra respigado aqui e acolá, em muitos textos. Trata-se de uma saudade dita e sentida de muitas formas pela autora. Trata-se igualmente de uma saudade antecipada, mas que não chega a ser saudade do futuro. Não, em M. H. S. É uma saudade do presente, da sua cidade, da sua gente e das suas coisas. E ao simples facto de pensar na possibilidade de um corte com este presente é causa de verdadeira angústia para o seu espírito. Por agora apenas menciono para posterior registo “retalhos” dessa saudade ligada e explicada pelo incomensurável afecto que a contista e a cronista tem pela sua cidade.
Mas “helás!” a cronista da cidade da Praia (a primeira e até agora única!) é obrigada, pelo menos os textos dela deixam perceber isso, é obrigada, dizia eu, a deixar a sua cidade e chega o momento mais temido, a partida. Escutemo-lo:
“Frente às palmeiras da Praia Negra os meus olhos encheram-se de mágoa: olhei longamente a terra seca das achadas, o cais a perder-se na distância, onde braços amigos acenavam ainda; a areia negra…tudo que não tem talvez encanto para mais ninguém, mas que para mim resumia o mundo todo e, sem vergonha, solucei, solucei até que a tristeza se me fundiu num doloroso cansaço.

“There is no place like home”!

Como os ingleses têm razão! …”

In: Maria Helena Spencer “Folhas de um diário” Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, nº 71, Ano VI, Agosto de 1955.

Maria Helena Spencer, quando há uns anos falei com ela ao telefone, (maravilhada com o timbre da voz segura e firme, na altura, da nossa então bela nonagenária!) para lhe pedir permissão de compilar em livro, os escritos dela – Que mais tarde seria  intitulado :«Maria Helena Spencer , Crónicas, Contos e Reportagens» 2005 edição do IBN -  perguntei-lhe se ela escrevera para mais Revistas ou, se havia publicado outros escritos, para além dos textos publicados no Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, respondeu-me:
 “... desde que saí da Praia, nunca mais escrevi nada!”…
Desligado o telefone pensei : “Ter-lhe-á faltado a sua musa inspiradora…a sua mui querida e amada Praia?... possivelmente.
Como devem calcular é muitíssimo mais extenso o roteiro que Maria Helena Spencer, nos oferece sobre a cidade da Praia, que ela amou e que tem sido tão ingrata com a sua memória!
Hoje mais de uma década passada sobre o passamento de Maria Helena Spencer, (2006) o munícipe praense aguarda uma, ainda que singela, placa com o nome desta insigne Jornalista e Contista, numa das artérias desta pequena cidade, que ela tanto estimou e tanto se preocupou com os seus problemas.

 P. S. – Este texto (aqui retomado, adaptado e actualizado) foi parte de um painel, organizado pelo Arquivo  Histórico  Nacional, em Maio de 2004, intitulado:

“I  Encontro  Sobre  A  História  Local - Um Olhar Histórico Sobre a  Praia – Cidade Capital,  Ontem  e  Hoje.”